Comércio de bens culturais roubados encontra abrigo na Alemanha

Palmira no deserto da Síria

Cidade de Palmira

O oásis de Palmira, no deserto da Síria, foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Mas depois de ser invadido e ocupado pelo grupo terrorista “Estado Islâmico” (EI), o antigo magneto turístico mais parece uma paisagem lunar.

Isso, porque assim que os milicianos do EI alcançam algum dos muitos sítios culturais milenares da Síria e do Iraque, eles começam a escavar de forma nada profissional. Explodem rochedos, cavam a até dez metros de profundidade e não hesitam em usar tratores de esteira.

Saquear a antiga Mesopotâmia é um negócio lucrativo. Nas ruínas dos antigos assentamentos, os criminosos procuram principalmente por objetos que possam vender facilmente no mercado internacional de antiguidades: belas estátuas, brinquedos ancestrais, joias. Aquilo que consideram sem valor, é vandalizado ou simplesmente largado para trás, desprotegido, nas crateras abertas.

Saque em escala inédita

O fenômeno das escavações ilícitas é quase tão antigo quanto a própria humanidade. Entretanto, com as guerras no Iraque, a guerra civil síria e a ascensão do “Estado Islâmico”, o saque de relíquias atingiu proporções jamais vistas.

Membros do Estado Islâmico destrói obra de arte

Membros do Estado Islâmico destrói obra de arte

Dia após dia, os intermediários contrabandeiam arte roubada das zonas de combate do Oriente Médio até locais como o porto livre de Dubai, passando pela Turquia ou o Líbano. Lá, os artefatos ou são comprados diretamente, ou enviados para antiquários e casas de leilão na Europa e nos Estados Unidos, munidos de documentação de exportação fornecida pelos intermediários.

Segundo a imprensa alemã, o comércio de objetos culturais roubados ou adquiridos ilegalmente ocupa a terceira posição no crime organizado no mundo, logo depois do tráfico de armas e de drogas. A cidade de Munique, no sul da Alemanha, é considerada um dos centros do comércio internacional de antiguidades.

Nos catálogos de leilões de Munique e outros grandes centros comerciais de arte como Bruxelas e Londres, as fotos dos objetos saqueados são legendadas com designações de origem vagas, como “Oriente Médio” ou “coleção particular bávara”. Os amantes da arte de Munique ou Bruxelas que compram esses artigos antigos não estão apenas se expondo a um processo criminal: ao adquiri-los, eles apoiam o terrorismo islâmico.

A ministra alemã da Cultura, Monika Grütters, anunciou no fim de outubro uma nova lei que visa transformar a legislação vigente sobre a repatriação de bens culturais, de 2007, numa ferramenta eficaz contra a importação de objetos roubados. “A Alemanha deve prestar atenção para não se tornar um ponto de tráfico”, alertou.
No entanto, de acordo com Sylvelie Karfeld, do Departamento Federal de Investigações (BKA), isso já ocorreu. Numa coletiva de imprensa em Berlim, a funcionária responsável pelo combate à venda ilícita de antiguidades chegou a descrever a Alemanha como “El Dorado do comércio ilegal de artigos culturais”. Em entrevista à emissora alemã NDR, Karfeld complementou: sob a lei atual do país, “um simples ovo de galinha é mais bem protegido e rotulado do que a mais valiosa antiguidade”.

Por: Philipp Jedicke
Fonte: Deutsche Welle