Cidade de São Paulo, a Jerusalém brasileira

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Fotos: Divulgação.

Durante quase 300 anos, a então Vila de São Paulo de Piratininga permaneceu estática, sonolenta, sem ser notada, isolada. Será mesmo?

Fruto de um plano econômico-militar estratégico, por parte de nossos colonizadores, os portugueses, seria essa isolada vila o futuro motor, a locomotiva, o carro-chefe ou diriam os adeptos das alegorias carnavalescas, a “comissão de frente” da futura nação que veio a se tornar independente da coroa portuguesa, a partir de 1822.

Longe do que aprendemos nos bancos escolares, foi após a fundação da 1ª vila do Brasil: São Vicente, levado a cabo por Martin Afonso de Souza em 1532, que iniciou-se os preparativos para a descoberta do interior do território, via subida da Grande Muralha, a Serra do Mar ou melhor, a Serra de Paranapiacaba. Até então, desde a chegada da esquadra de Cabral em 22 de abril de 1500, quase nada havia sido realizado, levando três décadas para que algum projeto de ocupação, ou melhor – no caso brasileiro – de exploração, tivesse início. Guardadas as semelhanças, o projeto inicial de conquista do território só “saiu da gaveta” exatos 32 anos após a chegada de Cabral nas costas brasileiras.

Fincada a bandeira lusitana, ocupou-se Martin Afonso de organizar, preparar, estudar e arregimentar soldados, religiosos e gentis – os naturais da terra, que aqui durante séculos já ocupavam e eram seus legítimos donos – para encontrar e acessar de maneira rápida e segura – relativamente segura pode-se dizer – o caminho para os metais preciosos, que naqueles tempos o que se tinha de notícia era sobre a prata existente segundo informações no lado ibérico, para além do Tratado de Tordesilhas.

Após 20 e poucos anos com tudo estudado, pronto e tendo como convidados – por amor ou pela dor – os guias – o povo da terra, os tupi-guarani começam a aventura da subida da Serra do Mar, onde após mais de um mês chegam ao planalto e ali se instalam, fundando uma primeira vila, a de Santo André da Borda do Campo, que tempos depois seria transferida território adentro, devido aos ataques indígenas. Naquele local, antes Santo André, no futuro seria instalada a cidade de São Bernardo do Campo.

Mas, voltemos à São Paulo.

São Paulo{28 fev 2005} 021.jpg1Instalados na borda do campo – ou na borda da Serra do Mar – no planalto, tropas e demais integrantes cuidam de fazer o reconhecimento do território e, claro, de descobrir onde e qual os caminhos que os tupi-guarani comentavam e, do qual, os portugueses queriam se apropriar. Afinal ouro e prata estavam muito além do que simplesmente querer conquistar um continente – que até então os colonizadores nem imaginavam que teriam pela frente. Seus ideais eram mesmo os de auferir mais riqueza e com ela o poder, que vinha no rastro, derrubando tudo e todos.

Porém, como comentado anteriormente, as terras já tinham dono e, não sem porque, estes soldados e jesuítas foram constantemente atacados. Daí verem a necessidade de se descolar para lugares mais seguros.

Existem relatos, que comentam sobre a trajetória e percurso realizado pelos colonizadores planalto adentro: “..de tão farta a existência de água naquelas paragens, que andamos dias e dias com o corpo dentro d´água, até os joelhos”. Depois de algumas semanas eis que encontram um local que associava relativa segurança com visibilidade do entorno e mais do que isso, próximo as vias de acesso as quais os portugueses vieram buscar conhecer e se apropriar: o então rio Anhembi – que depois mudaria seu nome para Tietê – e as seculares trilhas indígenas, que seguiam território adentro – originando séculos depois primeiramente ruas e avenidas como a rua da Consolação e Rebouças; Estrada da Intendência – depois São Paulo-Rio e mais tarde, dentro dos limites da capital paulista a Celso Garcia e, até rodovias como a Anhanguera, Raposo Tavares, Regis Bittencourt, Castelo Branco e assim por diante.São Paulo{28 fev 2005} 017.jpg1

O local, conhecido de muitos paulistanos era o famoso Morro de Piratininga ou Páteo do Colégio – do tupi: peixe seco, cercado de um lado pelo rio Tamanduateí – rio dos Tamanduás, e rio Anhangabaú – vale dos demônios.

Instalados no topo deste morro, puseram-se a construir de imediato uma pequena fortaleza, formada por troncos de árvores ao estilo de um paladiço, protegendo-se assim dos ataques dos então índios Tupinambás e Guaianases, que eram aqueles os donos do lugar naqueles tempos.

Esta chamada fortaleza não era nada mais, nada menos do que um posto militar avançado, o 1º dentro do planalto, após a subida da Grande Muralha, a Serra do Mar.

Longe de acreditar que tão somente São Paulo foi fundada pelos jesuítas e ali, construiu-se o famoso Colégio da Companhia de Jesus, com o intuito de “salvar” as almas ignorantes que ocupavam aquele território, a Vila de São Paulo de Piratininga nasce com um objetivo já estabelecido, o qual mudaria para sempre a então história da colônia ultramarina, a futura nação brasileira.

Mas qual era esse objetivo? Como consta dos registros históricos, os portugueses eram considerados os melhores cartógrafos da sua época – século XV e XVI. Diante disso e com as descobertas e ocupações acontecendo ao longo do Novo Mundo, começaram a traçar os caminhos para a consolidação – exploração – desses territórios. Munidos de informações coletadas ao longo das primeiras décadas pós-descobrimento, concluíram que o caminho mais curto e rápido para se chegar às minas de ouro e prata – ao final era somente prata – se daria pela parte do continente onde foi instalada a 1ª vila/cidade do Brasil: São Vicente. De lá para dentro do território, foi um pulo, como diriam alguns.

Entretanto haviam outras questões a considerar: o território adentro era desconhecido, dominado pelos gentios – índios tupi-guarani e pelo caminho, rumo à prata, encontrariam os espanhóis, que de seu lado – o do Tratado de Tordesilhas – igualmente estavam à procura das tais minas de ouro e prata. Anos mais tarde, após a fundação da Vila de São Paulo de Piratininga, a prata estava localizada na região do Rio da Prata, longe da fronteira portuguesa. Décadas depois, já no século seguinte vieram a ser descobertas pelos Bandeirantes as famosas minas reais, que originaram o estado das Minas Gerais, de onde a história todos conhecemos.

São Paulo{28 fev 2005} 071.jpg1Voltando à nossa trajetória paulistana, era preciso então instalar um “posto militar” onde este funcionasse como uma espécie de barreira alfandegária, cumprindo o seu papel de fiscalizar tudo e todos que se aventuravam território adentro ou que vinham deste rumo ao litoral.

Foi assim que nasceu a vocação econômica, que depois permitiu/viabilizou a entrada de milhões de imigrantes à cidade de São Paulo e dali rumo ao interior. Pois foi durante muito tempo que através deste posto militar avançado no planalto, instalado no alto de um morro, onde tudo se podia observar, quem chegava e quem saia da modesta vila, isolada do chamado desenvolvimento e burburinho da corte – a cidade do Rio de Janeiro, que cobravam-se os impostos pela circulação das mercadorias; impostos esses que passavam principalmente pelas matérias primas – as chamadas commodities da época – que eram subtraídas do território tendo como destino a metrópole portuguesa e Europa (pau-brasil inicialmente, depois cana de açúcar, algodão e metais preciosos). Sobre todo o tipo de mercadoria eram cobrados impostos, afinal a porta de saída da incipiente exportação era o Porto de São Sebastião, depois o lendário Porto das Naus, localizado em São Vicente até chegar ao que conhecemos hoje, o Porto de Santos – o maior da América Latina.

Desta forma, que durante os séculos iniciais a cidade de São Paulo “parecia” estar adormecida, foram sendo construídos tijolo por tijolo a sua vocação econômica, associada à sua destinação histórica – aqui foi fundada a 1ª vila do Brasil – São Vicente; proclamada a Independência do Brasil e constituídos os alicerces da República – Convenção de Itu, sem falar no Movimento Constitucionalista, que marcou para sempre a luta em prol do respeito as leis e a Constituição.

Talvez por tudo isso, teria nascido a célebre frase “Non Ducor Duco” inscrita na bandeira que representa a cidade de São Paulo, expressando todo este passado, reafirmando o presente e alertando para o futuro: “Não sou Conduzido, eu Conduzo”.

Por isso tudo, guardadas todas as semelhanças e proporções, a cidade de São Paulo está para o Brasil assim como Jerusalém está para todo o Cristianismo, com milhões de pessoas vindas em sua direção na busca de oportunidades e melhores dias.

Feliz 462 anos São Paulo!

Por: Marcos Marsulo.

 

SONY DSCSobre o Colunista:

Marcos Marsulo, historiador e consultor em turismo. Sócio-diretor da Estação História www.estacaohistoria.com.br, atuando no mercado há 18 anos com foco em pesquisas históricas, resgate e preservação da memória institucional, familiar.

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