Karin Lambrecht apresenta a exposição Concepção na Galeria Nara Roesler

A artista porto-alegrense Karin Lambrecht, nome de peso da antológica Geração 80, apresenta os logros de sua busca onírica pelo imaterial em sua primeira exposição no espaço carioca da Galeria Nara Roesler. “Concepção” apresenta cerca de 15 obras produzidas no ano de 2015, entre pinturas e desenhos.

Karin Marilin Haessler Lambrecht iniciou seus estudos artísticos no Ateliê Livre da Prefeitura de Porto Alegre, tendo sido aluna de Danúbio Gonçalves que por sua vez foi estudante de Cândido Portinari.

A artista possui uma trajetória profissional muito bem estruturada, já tendo participado de bienais e grandes exposições. Ela esteve presente nas edições da Bienal de São Paulo dos anos 1985, 1987 e 2002, também apresentou trabalhos na Bienal do Mercosul no ano de 2005 na cidade de Porto Alegre. Algumas de suas exposições individuais são: “Eclipse” que foi apresentada na Pinacoteca da Feevale em 2013, na cidade de Novo Hamburgo; “Cores, palavras e cruzes” na Galeria Nara Roesler em São Paulo no ano de 2002 ; “Projetos eventos especiais” exposta no espaço da Funarte do Rio de Janeiro em 1996. Suas mostras coletivas mais recentes foram: “O colecionador de sonhos” e “As tramas do tempo na arte contemporânea: estética ou poética?” ambas exibidas no Instituto Figueiredo em Ribeirão Preto respectivamente em 2011 e 2013; “Manobras radicais” no CCBB de São Paulo em 2006; “Arte no Brasil 1981-2006” no espaço Itaú Cultural em 2007 na capital paulista; “Lugares desdobrados” apresentada na Fundação Iberê Camargo em 2008, na capital gaúcha.

24

Obras da Artista – Fotos: Divulgação.

A crítica de arte e curadora Glória Ferreira costuma afirmar que a pintura de Karin Lambrecht é uma pintura expandida que tem sua origem com a arte conceitual. Os conceitos de fato são importantíssimos em “Concepção”, pois a artista centra seus esforços em expressar-se através de composições que remetem ao mundo dos sonhos visando atingir o imaterial. Na verdade pode-se afirmar que o sonial é a base da construção lógica dessa série de trabalhos, visto que este esquema está intimamente ligado a um sonho da artista relacionado com a espacialidade de seu ateliê:

“Sonhei que meu ateliê era parte de um prédio quase  labiríntico e, para chegar até meu espaço de trabalho, tinha que subir-se muitas escadarias incrustadas na parede. Na edificação, notava-se um tingimento  às vezes de cores intensas e outras vezes por notável ausência da cor. O espaço, arquitetonicamente, no meu sonho, era  todo recortado em linhas curvas e outras paralelas”.

As pinturas apresentadas se esforçam para manter distância do racional, o que elas desejam é expressar por meio de cor e forma uma expansão do não-racional da artista criadora. Enquanto a surrealista espanhola Remedios Varos fazia uso de uma técnica métrica e da verossimilhança com o mundo tangível para pintar sonhos, Karin escolheu a estrada oposta. A gaúcha trabalha com composições abstratas e fez questão de utilizar tons que não poderiam passar por funcionais. Agnaldo Farias no texto “Karin Lambrecht: a casa no tempo” afirma o seguinte:

“… ela buscou cores emancipadas, autônomas, azuis que não correspondem ao céu, laranjas tão estridentes que só seriam encontrados nesses isotônicos bebidos em academias, vermelhos mais profundos que o sangue vivo.”

A relação da artista com a coloração vibrante que se tornou uma de suas marcas começou muito antes de decidir se tornar pintora. Quando criança, seu passatempo favorito era desenhar, e para tanto ela utilizava lápis de cor que sua avó lhe enviava diretamente da Alemanha. Esses lápis possuíam tons bem mais fortes do que os que podiam ser encontrados no Brasil.

A intensa cromaticidade presente nas telas contrasta com a calma proporcionada pela monotonia cromática dos desenhos. Da brancura deles surgem elementos geométricos graciosos que criam uma composição angelical, é um encontro com o divino imaterial através da materialidade de uma obra de arte. Os tons que se sobressem à homogeneidade do branco celeste são justamente o dourado e o prateado; sendo que para diversas cosmogonias ao redor do planeta o ouro e a prata são formas sólidas de representar a divindade que é etérea.

“Tanto a prata quanto o ouro me pertencem, declara o Senhor dos Exércitos”- Livro de Ageu 2:831

O vocabulário imagético apresentado possui espírito próprio, o que enriquece muito a experiência visual do observador. Há obras que destacam as linhas da costura feita pela artista, há até mesmo presença do sangue vertido através dos pequenos ferimentos sofridos pela mesma ao utilizar alfinete e agulha. A cruz se faz presente em boa parte dos trabalhos e remete tanto ao sacrifício de Cristo quanto a um momento de lucidez humana, já que para Karin Lambrecht esse símbolo também representa o momento em que o homem primitivo consegue caminhar com uma postura ereta, tornando-se senhor de sua própria consciência. Palavras escritas também fazem parte do conjunto de ferramentas plásticas de Karin, em alguns trabalhos elas parecem navegar a esmo pelo mar de cores enquanto que em outros parecem emergir da tela para comunicar sentimentos profundos ao espectador.

45

56

Detalhe da obra acima

 

Os artistas geralmente produzem anulando a voz dos materiais para subjugá-los à sua própria potência criativa, indo em uma corrente oposta, Karin Lambrecht trabalha respeitando a essência deles. Sua criação é o produto da união de uma pré-disposição artística do material bruto e de suas ideias enquanto fator modelador. No tocante à escolha de materiais a artista chega a fazer alusão a Joseph Beuys e à Arte Povera; Karin constantemente adiciona aos seus trabalhos elementos tidos como menos tradicionais que vão desde itens sintéticos comprados em lojas a componentes orgânicos como sangue animal ou o seu próprio, carvão, terra e água da chuva.

67

“Concepções” abre ao público as portas do onírico, entretanto o sonho não é livre, a estrada pela qual passar já foi pré-concebida por Karin Lambrecht. O observador deve ir atrás do imaterial perdido em algum ponto e trazê-lo de volta, só assim o espiritual se unirá ao material das obras fazendo cumprir a profecia anunciada em uma das telas “durmo em ti”. Aqueles interessados em percorrer o caminho proposto pela artista terão até o dia 9 de abril para visitar a exposição.

78

89

Detalhe da obra acima

“Que toda la vida es sueño y los sueños, sueños son”. – Calderón de la Barca, escritor do século de ouro da literatura espanhola.

Por: Samuel Graças – Correspondente ANApress para o Rio de Janeiro.