EDITORIAL

Vende-se uma vaga em conselho de museu

Luciano Huck

Luciano Huck

Em assembleia realizada no dia 30 de março, o conselho deliberativo do MASP, Museu de Artes de São Paulo, aprovou a entrada do apresentador  como novo conselheiro do espaço.

Apresentador de TV, empresário, garoto propaganda de banco, e de uma porção de outras marcas, Huck será o mais famoso integrante do conselho, que em geral tem gente muito poderosa, mas não tão famosa quanto um apresentador de televisão. É o caso de empresários como Abram Szajman (criador da VR, de alimentação) e Olavo Egydio Setubal Jr (da família dona do Itaú). A ideia é aproveitar justamente essa notoriedade para ajudar a captar patrocínios para o MASP.

Para ser conselheiro é preciso ser indicado, mas o nome está sujeito à aprovação do conselho, cujo membro tem poder político, com direito a voto nas assembleias, podendo influenciar os rumos da instituição, a escolha de mostras futuras planejadas pelos curadores, decisões estratégicas do museu e outras questões debatidas nas reuniões do conselho, que acontecem a cada três meses.

Huck desembolsou R$ 150 mil, este é o valor da contribuição média paga pelos conselheiros em sua entrada, podendo chegar a R$ 500 mil. Fora isso, cada conselheiro precisa desembolsar anualmente um valor obrigatório de R$ 27 mil. A exigência da doação é uma prática nova na instituição, que entrou em vigor há dois anos como parte da reforma administrativa do museu, que precisava garantir mais recursos para seu funcionamento. A entrada de Luciano Huck no MASP mostra uma estratégia desenvolvida pelo atual diretor-presidente,  Heitor Martins, desde que este assumiu a instituição em estado de falência, em 2009.

Após uma crise financeira gerada por processos e má gestão, o saldo negativo do MASP era de cerca de R$ 70 milhões, Martins impôs que cada um dos 83 membros do conselho fizesse uma grande doação imediata, e o conselho passou a incluir empresários como José Roberto Marinho e Carlos Jereissati Filho. Desde então, Heitor Martins passou a levar para o MASP um grupo de empresários que se utilizando da ajuda de leis de incentivo fiscais, quitou as dívidas, porém tais empresários não possuem a menor sensibilidade para a arte, que é essencial para instituições esta. São figuras distantes do pensamento artístico especializado, praticamente não há artistas, curadores ou críticos entre seus pares, decisões importantes como a eleição para diretor, se tornaram estratégias para captação financeira.

MASP - Foto: Divulgação

MASP – Foto: Divulgação

Luciano Huck é mais um exemplo de que, nesse novo sistema, as instituições de arte têm em seus conselhos superiores interesses muito distantes do que importa na arte, ele passa a fazer parte do conselho do MASP no momento em que o presidente Heitor Martins tenta retomar a importância da instituição, coisa que a presença de Huck dificultará acontecer.

Segundo o apresentador, ele passou a infância visitando o MASP, ao praticamente comprar uma cadeira no conselho do museu sem nenhum preparo para ocupar este cargo, vemos que ele não aprendeu ou compreendeu  a importância deste segmento para uma sociedade como a brasileira, neste triste momento de nosso país, temos um exemplo explícito de enorme desprezo pela cultura, Luciano Huck pode e deve ser um patrocinador e incentivador da arte e cultura, mas deve também ter humildade suficiente para reconhecer que talvez não tenha competência suficiente para ser conselheiro de um dos mais importantes museus do Brasil e da América Latina, ou de qualquer outra instituição como esta.

No Brasil, certamente existem muitas pessoas com vasto conhecimento sobre arte que poderiam ocupar o lugar de Luciano Huck no conselho do MASP, mas não fazem isto, pois nenhuma delas possui 150 mil reais para doar aos cofres do museu.

Por: Edna Pessanha