Lajes de barracos são transformados em obras de arte pra mudar a percepção das pessoas sobre as comunidades

Foto: Starley Kemp

Foto: Starley Kemp

Certa vez o artista Dágson Silva ouviu helicópteros sobrevoarem seu bairro e percebeu que eles eram de um canal de TV. Ligou seu aparelho e viu sua casa e as dos vizinhos ilustrando uma matéria sobre criminalidade. Incomodado com a imagem que foi passada, teve uma ideia: transformar as lajes em telas para mostrar que no aglomerado tem muito mais do que violência.

Dágson vive no Morro das Pedras, em Belo Horizonte, e usa a arte para desconstruir a visão negativa sobre as comunidades que certos ramos do jornalismo insistem em explorar. “Um dos meus objetivos era levantar reflexão e discussões sobre a paisagem do bairro. Agora, se algum helicóptero da polícia ou da imprensa vier aqui, vai ter um detalhe diferente para mostrar”, conta.

Os rostos não foram escolhidos por acaso: o Morro das Pedras foi formado principalmente por pessoas vindas do interior mineiro. Gente da zona rural, de comunidades indígenas ou quilombolas. Assim, as pinturas nas lajes são também uma homenagem às raízes do aglomerado.

Os vizinhos curtiram o trabalho, e têm parado Dágson na rua para saber mais e expressar orgulho por ver o bairro representado de outra forma. Gente de outros lugares de Belo Horizonte também foi até o local para conferir, e o objetivo do artista, de levantar o debate sobre o tema, já foi cumprido.

Dágson começou na arte de rua através do graffitti, quando tinha 15 anos. Na época, andava de skate e circulava muito pelos espaços urbanos, o que explica a vontade de mudar a percepção: “ressignificar um espaço é propor uma outra leitura do local, e um dos grandes motivos da arte urbana”.

Dágson tem grafites em São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Bahia. Já fez uma turnê pela França e deixou sua arte em Paris, Lyon, Saint-Étienne e Belley. “Antes da internet, era sempre a imprensa que falava sobre as comunidades. Hoje os artistas e produtores culturais podem divulgar seus trabalhos, mostrando que as favelas não são espaços onde há violência e nada mais”.

Por: João Rabay
Hypeness