Galeria-de-arte

Curator, cuidador, curador. Muito além da intermediação entre artista e público

ClarkO termo curador tem origem na palavra latina curator, que é aquele que cuida de algo, um guardião. No mundo das artes, esta palavra designa muito além de um simples cuidador.

Ele é quem cria o conceito, a montagem e todo o resultado final de uma exposição de arte, seja em museus ou centros culturais, ele está por trás da disposição, iluminação, organização e todos os seus detalhes, por menores que sejam além da produção do texto curatorial.

Este profissional pesquisa acervos, conhece artistas e diretores de instituições culturais, dá consultoria para colecionadores, acompanha prêmios e concursos, lê revistas especializadas, visita ateliês, galerias, museus e eventos de arte, e se intera do que está acontecendo no mundo das artes plásticas, fotografia, cinema, música, literatura, história e filosofia, entre muitos outros assuntos.

A curadoria trabalha com o fato de que há uma narrativa a ser contada, o curador coordena um grupo de trabalho que não só organiza mas concretiza o evento, promovendo assim o encontro entre a criação artística e a recepção do público. Esse trabalho potencializa, jamais ofuscando, a proposta do artista.

O curador acompanha o processo de criação e ainda tem papel importante na difusão da cultura e alfabetização visual do público, propõe questionamentos e aguça a capacidade de interpretação. Quando bem feito o trabalho do curador se transforma também em um excepcional processo educativo.

ARQUIPÉLAGO

Segundo a Coordenadora do curso de Pós Graduação Curadoria em Arte do Senac São Paulo, Sandra Tucci, o curador é basicamente um mediador entre a arte, os artistas e as instituições. Ele pode realizar várias ações, além de imprimir um olhar novo a uma exposição, pois cria novas relações, recortes conceituais, narrativas e discursos, trazendo a público aspetos e formas de expor inéditas ou diferenciadas. Geralmente sua formação é em Artes Visuais ou Filosofia, porém, cada vez mais designers, arquitetos e gestores culturais se interessam por esta profissão.

“O curador atua com os mais diversos públicos, uma vez que participa ativamente de todas as etapas de um projeto curatorial, dimensionando recursos necessários (financeiros, técnicos, materiais e humanos) e propondo estratégias para a viabilização de seu projeto. Portanto, ele terá que discutir orçamentos e fazer adequações, manter uma comunicação fluente com a equipe de arquitetura e montagem, com a equipe de design e comunicação e até poderá pensar estratégias juntamente com a equipe do setor educativo. Ele deixou de atuar apenas como conservador-chefe de museus, passando a realizar também projetos curatoriais independentes, imprimindo, muitas vezes, uma visão autoral às suas mostras. Isso se deve à indústria cultural, que abriu outros postos de trabalho e permite que muitos mais profissionais da área possam produzir e manifestar suas ideias. O que é possível por meio de financiamento coletivo que angaria fundos para projetos de diferentes tamanhos e públicos.” Diz Sandra.

1

Ainda segundo Sandra Tucci, atualmente existe a figura do “novo” curador, que traz consigo a abertura de um mercado atualizado, no qual a atuação se dá em eventos ou mostras específicas de forma independente (curadoria independente), sem deixar de lado os papéis em que este projeto já atua, como as curadorias em galerias, centros culturais, curadorias de coleções privadas e museus, dentre outros. A curadoria, nesse sentido, amplia-se ultrapassando as linguagens das artes visuais, incorporando outras áreas como design, fotografia, arquitetura, moda, cinema, dentre outras. “Para dar conta deste novo modelo, o mercado necessita de profissionais que possuam conhecimentos não somente de história da arte, crítica e pesquisa, mas também conhecimentos de montagem, design expositivo, coleções, relacionamentos com artistas e equipes, bem como de questões de projetos e do mercado de arte. O curador deve conhecer todas as etapas: da concepção à produção de exposições – para diferentes espaços culturais, tais como: museus, galerias de arte, instituições públicas e privadas ou espaços alternativos. Ele pode ser acionado tanto por artistas como por instituições. Por colecionadores ou por familiares de artistas já falecidos. Cada projeto tem uma demanda diferente. Se um museu quer fazer uma retrospectiva de um determinado artista, por exemplo, ou se um artista quer um texto curatorial para um catálogo de sua exposição. Ou ainda, esse profissional pode aconselhar quem quer adquirir uma obra de arte para começar a formar uma coleção particular”. Salienta.

Quanto à remuneração, caso o curador esteja vinculado a uma instituição ou museu, terá um salário condizente com sua qualificação e cargo. Como autônomo, deverá ajustar-se às leis de incentivo, patrocínios ou políticas públicas que possuem valores bastante variados para remunerar esta função dentro de cada projeto.

Sandra Tucci

Sandra Tucci

Anapress – Para alguns profissionais do setor, a curadoria é uma profissão relativamente nova, o que a fez surgir?

Sandra Tucci  – O fortalecimento do curador – traz consigo a abertura de um novo mercado, o da indústria cultural.   Além de atuar em galerias, centros culturais, museus e em coleções privadas, o curador pode atuar de forma independente transpondo o campo das artes visuais, atuando em áreas como design, fotografia, arquitetura, moda e cinema, dentre outras.

Anapress – Quais os requisitos para ser um curador?

Sandra Tucci  – Gostar de artes, pois é no campo das artes que sua profissão se iniciou; estudar, ler e escrever muito, conhecer bem sua área de pesquisa.

Anapress – O que faz um curador?

Sandra Tucci  – O objeto de preocupação de um curador tradicional envolve necessariamente objetos tangíveis de algum tipo, seja obras de arte, coleções, itens históricos ou coleções científicas.  Mais recentemente, novos tipos de “curadores” estão emergindo. Este curador cria narrativas e percursos a partir de um dado acervo: ele organiza, seleciona, cria relações entre as obras e as apresenta em uma exposição para o público.

Anapress – Quais diferenciais deve ter um curador para se destacar em sua função e ser um profissional requisitado?

Sandra Tucci  – É importante perceber os movimentos do mercado cultural e da cena artística. É importante ser inovador, estar antenado com as mídias sociais e saber se articular institucionalmente. Ter conhecimento de seu público também irá favorecer o acesso e o interesse do público e abrir espaços para possíveis transformações culturais.

Anapress – Um curador pode ser mais importante do que o artista e o trabalho que está sendo apresentado? O quanto isso influi positiva ou negativamente no sucesso de um evento?

Sandra Tucci  – O sistema da cultura é um sistema articulado e cada um tem o seu papel. O artista é artista e o curador é curador. São funções diferentes.   São vários e diversos fatores que farão um evento mais ou menos bem-sucedido.

Anapress – Artistas, galerias e promotores de mostras e eventos podem preferir um curador famoso ao invés de um curador competente? Quais as consequências desta escolha?

Sandra Tucci  – Cada projeto tem um orçamento e um público. Se for uma Bienal, o perfil do curador ou equipe de curadores deve ser o de pessoas que tem transito internacional. Já o de uma mostra em uma galeria de bairro, geralmente tem um orçamento mais reduzido e não necessita de um grande nome para realizar a curadoria de sua lista de artistas.

diversao-primeira-exposicao

Anapress – Conhecer seu público para que uma proposta seja compreendida é o grande desafio e motivo de sucesso do trabalho de um curador?

Sandra Tucci  – Sim. É um dos desafios.

Anapress – Atualmente existe alguma dificuldade em encontrar profissionais habilitados e capacitados para exercer a função de curador seja em equipamentos culturais ou de forma autônoma?

Sandra Tucci  – Existem alguns cursos profissionalizantes que podem ajudar a performance das pessoas que pretendem desempenhar a função de curador seja em âmbito institucional ou particular.

Anapress – É possível fazer um evento de arte sem um curador? Um evento obrigatoriamente ganha com um curador e perde sem ele?

Sandra Tucci  – Depende. Se for um evento que tenha uma exposição de arte é melhor que tenha uma curadoria.

Anapress – Quais são os mercados mais promissores para atuação de um curador de arte?

Sandra Tucci  – Museus, galerias de arte e centros culturais.

Anapress – Algumas mostras e instituições de arte têm programa de jovens curadores. Qual a importância desse tipo de programa?

Sandra Tucci  – Este tipo de programa é muito importante para a consolidação da profissão pois os participantes podem se aproximar dos acervos e conhecer e conversar com curadores já renomados.

Anapress – Novos formatos de curadoria estão despontando? Se sim, quais?

Sandra Tucci  – Mais recentemente, o termo curadoria tem despontado em outras áreas tais como: Curadoria de objetos digitais, que trata da gestão e preservação, tratamento, organização, ferramentas digitais; Curador de dados digitais que se refere à ciência computacional, ao rastreamento e ao monitoramento; “ Biocurators”, para a catalogação de modelos biológicos  e organismos;  Curadoria de conteúdo  para as  redes sociais, entre outros.

Gallery5Anapress – Algumas pessoas que visitam grandes eventos de arte contemporânea comentam: “Meu filho é capaz de fazer igual a isto”.  Qual o papel do curador para evitar este o mal-estar gerado entre público e obras?

Sandra Tucci  – É importante que a instituição possa oferecer ao público programas de mediação e monitoria para que este possa conhecer um pouco da história da arte e do artista que está em exposição.

Anapress – Para alguns profissionais do setor de arte o mercado descartou a opinião do público, se importando apenas com mega eventos como as bienais e grandes mostras, onde artistas milionários viram popstars idolatrados pelo mercado enquanto suas obras ignoram o público. Como o curador pode reparar isto?

Sandra Tucci  – Este mecanismo faz parte do mercado cultural. Alguns setores como o da música pop recebem uma grande injeção financeira de seus patrocinadores por interesses diversos.  Nem sempre cabe ao curador determinar estes mecanismos.

Anapress – Quando o público se afasta das exposições de artes, como deve ser o trabalho do curador para trazê-lo de volta?

Sandra Tucci  – O museu, em geral está cada vez mais interessado em atrair público e criar nele um habito cultural, portanto oferece um programa rico em atividades para famílias, crianças e diferentes públicos, além de exposições temáticas e de seu acervo.

Anapress – Museus, eventos e galerias de arte, além de opções de lazer, também fazem parte do circuito turístico das cidades. Como o trabalho do curador contribui para tornar esse circuito atraente?

Sandra Tucci  – O curador pode propor ao museu exposições cujas temáticas sejam atraentes para grande público, atraindo assim gente de todas as idades.

maspAnapress – Os setores artísticos e culturais contribuem para a economia de várias cidades que podem se destacar no circuito nacional e internacional. O curador deve ser um mediador entre arte e público e também bom negociador? Se sim, qual a importância deste profissional se reconhecer nestas funções?

Sandra Tucci  – As vezes o curador poderá atuar também como gestor cultural, mas isso não é obrigatório. O gestor cultural exerce funções de negociação, administração, gestão e produção e muitas vezes o curador é mais um membro de sua equipe.

Anapress – Quais os desafios que enfrenta o curador para conservar a arte em lugar de importância em uma sociedade, e manter seu perfil instigante e excitante, e assim, contribuir para que aconteçam algumas transformações sociais?

Sandra Tucci  – Se trabalhando em uma instituição cultural, seu papel pode ficar mais focado em trabalhar em equipes multidisciplinares para preservar, zelar e expor a público o patrimônio cultural. Se independente, poderá também promover e pensar a cultura como agente sociocultural.

Sandra Tucci  é Artista Plástica, curadora e professora. Participou de exposições coletivas e individuais em âmbito nacional e internacional. Idealizadora e mediadora da Incubadora de Criação do Collegio das Artes. Coordenadora do curso de Pós Graduação Curadoria em Arte do Senac São Paulo e docente dos cursos de Pós Graduação em Gestão Cultural e Fotografia Aplicada. Mestre em Comunicação e Artes pela Universidade de São Paulo ECA (2003). Desde 2005, desenvolve atividades educacionais, culturais e artísticas em gestão e empreendedorismo cultural e curadoria para projetos sócios criativos e culturais.

Esta matéria foi escrita com base algumas fontes e reportagens, dentre elas: A curadoria ultrapassa a linguagem das artes visuais<http://www.sp.senac.br/jsp/default.jsp?tab=00002&newsID=a24223.htm&subTab=00000&uf=&local=&testeira=2092&l=&template=&unit> e Novas práticas na curadoria de artes<http://www.culturaemercado.com.br/site/entrevistas/novas-praticas-na-curadoria-de-artes/>.

Por: Edna Pessanha