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Os bits e bytes da batida eletrônica

eletronicaA história da música eletrônica tem seu marco inicial em 1948, com a difusão do Concert de Bruits pela Radiodiffusion-Télévision Française, influência do francês Pierre Schaeffer que criou o musique concrète, onde a composição era feita a partir de ruídos gerados por toca-discos, além de incluir a manipulação sonora por meio da variação da velocidade ou do sentido de leitura das gravações.

Na mesma época o alemão Werner Meyer-Eppler realizava experiências com síntese sonora, ao mesmo tempo em que especulava sobre sua possível aplicação em música. Em 1951, Meyer-Eppler e o compositor Herbert Eimert juntaram-se a Robert Beyer, e criaram o primeiro estúdio de elektronische musik (música eletrônica). Embora usassem técnicas de gravação e montagem semelhantes às realizadas nos estúdios da RTF em Paris, essas técnicas eram aplicadas apenas a sons de origem eletrônica, gerados por osciladores elétricos.

A música eletrônica começou a se popularizar com o surgimento dos sintetizadores digitais, posteriormente com os samplers, porém o “boom” ocorreu com os computadores pessoais que possuem recursos de áudio e a facilidade para se montar um home – studio, sendo possível emular as funcionalidades de instrumentos musicais ou de sintetizadores através da criação, manipulação e apresentação virtual de som.

A popularização destes instrumentos fez surgir, no mundo, diversos artistas que passaram a se dedicar exclusivamente a música eletrônica, aparecendo diversos estilos, tais como a música industrial, a música eletrônica dançante, que se ramificou em House, Trance, Acid House, Techno, Hardcore Techno, Breakbeat, Drum n Bass, Ambient, Tribal, entre vários outros. Pode-se resumir a música eletrônica como “a música produzida a partir de não-instrumentos, ou de instrumentos adaptados para produzir som modificado pela eletricidade”.

Entretanto, no Brasil surgiu, um novo estilo de música eletrônica denominada Electronic Live Music, que é a inserção e modificação do som pela eletricidade no exato momento em que a música está sendo propagada, ou seja, a música vai sendo modificada ao mesmo tempo em que está sendo executada ao vivo. Um elemento importante para o desenvolvimento da música eletrônica dançante foi o desenvolvimento das Raves. Tais festas de música eletrônica começaram como uma reação às tendências da música popular, a cultura de casas noturnas e o rádio comercial.

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Seu objetivo primordial era a interação entre pessoas e elevação da consciência (uma fuga da realidade) através de diversas formas de arte. A música eletrônica teve papel fundamental em tais festas na medida em que proporciona através das batidas repetitivas e progressivas um efeito hipnótico nos participantes, potencializado às vezes pela utilização de entorpecentes. A partir do desenvolvimento do estilo eletrônico na década de 1980 foram promovidos eventos em regiões rurais destinados a reunião de pessoas, dança e utilização de ecstasy. De forma análoga, o da década de 1960 pregava a reunião das pessoas e a utilização de drogas (especialmente o LSD) como forma de elevação de consciência. Mesmo com a reação negativa da mídia em relação a tal cultura o estilo foi se desenvolvendo, resultando em um estilo de vida para os participantes, não podendo esquecer do fortalecimento do movimento LGBT e o rádio comercial. Seu objetivo primordial era a interação entre pessoas e elevação da consciência (uma fuga da realidade) através de diversas formas de arte. Fomentadas primeiramente no Reino Unido e Alemanha, se expandiram para o mundo todo (em muitos casos a estética primordial, baseada na novidade da sonoridade eletrônica, foi substituída por eventos puramente comerciais).

Acid House! – o surgimento das Raves

A partir de 1988, sob a alcunha Acid House, originou-se um movimento contracultural em plena Europa convoluta e em meio ao fim do Socialismo, o desmantelamento da URSS, a reunião da Alemanha, que pregava atitude amistosa e tolerante em contraponto ao pessimismo dark dos anos 80. Tanto que o período primordial da Acid House,  (que existiu mais ou menos de 1988 a 1992) foi apelidado de Second summer of Love, em referência àquele período dos anos 70 – e, é bom que se saiba, ao amplo consumo da droga MDMA, cujos usuários são envolvidos numa mistura de pacifismo e euforia. A base sonora era fundamentalmente eletrônica e rítmica. A cultura de sintetizadores dos anos 70 (krautrock, ambient) se unia com a música eletrônica de gueto dos anos 80 (electrofunk, hip-hop), os ecos da disco music (house) e ruídos sintetizados e mecanizados das metrópoles (techno). A Acid House também antecipou as estéticas cyberpunk dos anos 90 e geek dos anos 2000. Mesmo com reações negativas da mídia, sobretudo pelo fato de os inúmeros eventos serem ilegais por causa das drogas, o estilo foi se desenvolvendo, e o gênero musical se transformou em movimento. A partir do final da década de 1990 o termo caiu em desuso pelos seus participantes na Europa devido à massificação e desvirtualização do uso.

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O Que é Rave?

Rave é uma festa realizada em áreas mais afastadas dos grandes centros urbanos, por exemplo, sítios e galpões abandonados localizados nas periferias, onde música eletrônica toca incansavelmente durante horas, chagando a durar dezoito horas ou mais. Na maioria das vezes, o local é dividido por salas ambientalizadas, cada uma tocando um estilo musical diferente. Geralmente, com estas características, elas costumam ser denominadas de indoor, que comportam o significado das Raves que acontecem em lugares fechados.

Algumas festas são munidas de parques de diversão e apresentações de artistas performáticos. A primeira festa Rave no Brasil aconteceu no ano de 1992 e foi batizada com o nome de Jenetarion. A festa foi amplamente estampada pelas mídias e pelos patrocinadores, que era na época uma marca de jeans. A festa aconteceu no estádio do Pacaembu, na cidade de São Paulo. Este tipo de evento se proliferou de forma silenciosa no País ao longo das duas últimas décadas. Atualmente calcula-se que existam aproximadamente mais de 1,5 mil festas por ano, levando ao menos dez mil jovens para esse tipo de balada por mês. As Raves foram trazidas por Djs estrangeiros e até hoje recebem grandes nomes, mesmo com toda uma visão negativa em volta.

Posteriormente, devido aos locais onde aconteciam as festas, a mídia perdeu o interesse em cobrir tais eventos, que com o aumento da popularização começou a despertar o interesse dos meios de comunicação, e consequentemente, da polícia. Com isso, as Raves começaram a ser perseguidas, o que ocorre até hoje, sendo apresentadas como locais de tráfico de drogas, em grande parte, drogas sintéticas. Para alguns organizadores, a não utilização do nome “Rave” faz com que a festa seja muito melhor aceita pelo público, atualmente algumas dessas festas se transformaram em grandes eventos de música eletrônica.

A discussão é controversa e gira em torno de diversas opiniões individuais. Em São Paulo, onde diversas Raves e festivais acontecem todo ano, cada cidade apresenta (ou não) uma resolução para o assunto. No município de Embu-Guaçu é “terminantemente proibido” organizar eventos do gênero musical eletrônico. Já em São José dos Pinhais é liberado.

housemusicDebate Democrático

Não existe uma lei federal que trate da legalidade das Raves. O grande obstáculo para que as grandes festas de e-music sejam tratadas como encontros de expressão musical continua sendo a falta de conhecimento e preconceito de uma parcela da população, que muitas vezes destaca o consumo de drogas e violência que acontecem nas Raves, mas fecham os olhos para as mesmas ocorrências no Carnaval, por exemplo, que é uma manifestação cultural autêntica e que acontece em todo país.

Se tivéssemos que nomear um local no Brasil como capital da e-music, com certeza seria Santa Catarina, que atualmente concentra os mais renomados clubes do país, como o Green Valley, Warung, Pacha e Terraza, além de ter sido sede do Dream Valley, festival que teve sua última edição realizada em 2014. No entanto, o que pouca gente sabe é que as Raves são proibidas no âmbito jurídico dentro de Santa Catarina.

Em 2003, uma reportagem da Folha de S. Paulo divulgou uma ordem emitida pela Secretaria Estadual da Segurança Pública, a Gerência de Fiscalização de Jogos e Diversão, órgão da Polícia Civil, que proibiu a emissão de alvarás de funcionamento para as Raves em lugares abertos.

Para alguns frequentadores, o grande trunfo desse tipo de diversão é poder sair das baladas urbanas e curtir uma festa ao ar livre, porém ressaltam que a repressão surtiu efeito, e a quantidade de Raves no entorno da capital de São Paulo diminuiu, salientam que no interior elas continuam fazendo muito sucesso. Assim como outros modismos, as Raves podem estar passando por um encolhimento natural.

batataaO Batata Eletrônica é um projeto cultural que visa desenvolver e ocupar os espaços públicos, localizado tradicionalmente no Largo da Batata no bairro de Pinheiros em São Paulo. Seu objetivo é difundir a cultura em forma musical, enaltecendo a cena eletrônica underground, através da contribuição de artistas respeitados e promovendo oportunidade para novos músicos.

Em treze edições o coletivo conseguiu alcançar grandes horizontes, colocando mais de quinhentas pessoas no Largo da Batata e tendo uma movimentação altamente circular na cena de São Paulo, chamando a atenção de grandes artistas do movimento underground.

O DJ paulistano Alan Max é fundador/residente do Projeto Batata Eletrônica.
Amante declarado da música eletrônica e da noite paulistana desde meados de 1998, suas influências vão desde o House até o Techno, tornando-se precursor de uma linha de Techhouse reconhecidamente muito contagiante pelos fãs da festa Batata Eletrônica, teve sempre como objetivo principal revelar o que a cena tem de melhor por meio de uma festa democrática, que visa dar oportunidade para novos DJs e também convidar importantes nomes da música eletrônica.

A rua definitivamente é o seu lugar, participou de projetos como SP Na Rua, Mês da Cultura Independente, mas também teve a oportunidade de se apresentar em conceituados clubs/projetos como Clash club, Stigma na Paulista, Club Alôca, Vai Ter After Depois, Freakhouse entre outros; considerado por muitos um novo nome em ascensão na cena, esteve presente conjuntamente em lines up com importantes DJs como Mandraks, L_CIO, Julião, Dany Bany entre tantos outros.

entrevista

Alan Max

Anapress – Como e por que surgiu a ideia de criar o Batata Eletrônica?

Alan Max –  A ideia surgiu como consequência do sonho de ser DJ, pelo amor a música eletrônica e a necessidade de aprender a “tocar”.  Demorou muitos anos até que eu conseguisse ter condições financeiras para adquirir os meus primeiros equipamentos e testar as primeiras mixagens.  Comecei tocando em festas de amigos e um dia resolvi juntar alguns equipamentos de som e levar para a praça: e foi sucesso ! Muita gente veio conferir o que era esse tal de “Batata Eletrônica”, e assim, o que era ideia virou projeto.

Anapress – Por que escolheu o Largo Da Batata para iniciar este projeto?

Alan Max – Sou morador da região há alguns anos e acompanhei diversas atividades culturais que eram promovidos lá. O Largo da Batata sempre foi um lugar meio ermo, esquecido das políticas públicas de inserção social, lugar muito frequentado por usuários de drogas e moradores de rua, pensei que uma ocupação de caráter cultural do espaço público poderia promover melhorias e dar incentivar a ligação afetiva dos paulistanos da região de Pinheiros para com o Largo da Batata. Esta foi a iniciativa de muitas pessoas que tentaram fazer alguma coisa para melhorar aquele lugar, a Batata Eletrônica foi apenas “uma”, muita coisa foi feita e tem sido feita, embora atualmente, o lugar passou a ser esquecido novamente.

Anapress – Como o Batata Eletrônica se mantém? Ele tem fins lucrativos?

Alan Max – A Batata Eletrônica se mantém única e exclusivamente pelo amor e empenho financeiro do idealizador e dos coletivos que entram com parcerias para custear coisas como as caixas de som, aparelhagem etc. Tivemos  uma oportunidade de participar de alguns projetos da  Secretaria de Cultura da gestão anterior (SP Na Rua), mas no momento, estamos sem nenhuma fonte de verbas para fomentar a continuidade do projeto e também não conseguimos apoios para realizar eventos privados para tentar angariar fundos.  Estamos enfrentando sérias dificuldades, pode ser que a festa que acontecerá no domingo, dia 28 de maio seja uma das nossas últimas festas. Até o presente momento, nenhuma instituição cultural ou marca manifestou interesse em apoiar o projeto, mas não perdemos a fé.

Anapress – Algumas Raves se aproximam de rituais religiosos, isso acontece no Batata Eletrônica?

Alan Max – Sim e não!! Segundo a neurologia, embora o tempo e a batida rítmica da música eletrônica muito se assemelha ao compasso musical de rituais religiosos presentes em muitas culturas, colocando o indivíduo numa espécie de ritual de transe (transcendência) – estado de expectativa do compasso progressivo e repetido – , há diversos tipos de música eletrônica. O Trance, por exemplo, foi criado em Israel e na India dentro desses contextos  religiosos até se tornarem produtos culturais musicais que possam ser consumidos pela indústria fonográfica; a música do Batata Eletrônica não é para o espírito, nem para alma, ou para a conexão com o Divino, nossa música é para balançar o esqueleto!! Gostamos é do Techno e da House Music!! Adoramos chamar os amigos para dançar na praça!

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Batata Eletrônica

Anapress – Qual a reação dos moradores e comerciantes da região quanto a atuação do Batata Eletrônica ?

Alan Max – No começo haviam muitas reclamações por causa do volume do som, mas aos poucos, os moradores e frequentantes passaram a perceber que aquilo era uma coisa legal para o espaço, estamos enfrentando uma das mais sérias crises econômicas que o Brasil já passou, qual que é a opção de diversão da juventude? Nenhuma!!  Nós damos essa opção de lazer e cultura para principalmente os jovens e o melhor de tudo: de graça!!!  Jovens de diversos cantos dessa cidade de São Paulo vem prestigiar o projeto, gente de várias tribos e classes sociais e todo mundo gosta do Batata!

Anapress – Quem idealiza uma nova festa de rua ou Rave tem facilidade para conseguir DJs, ou estes profissionais se interessam mais por coletivos e eventos conhecidos?

Alan Max – Não confundir festa de rua com Rave! Nós não fazemos rave na rua!!! Somos um coletivo de festa de rua independente que sustenta um projeto de ocupação cultural em um espaço público. Rave hoje em dia tem muito mais haver com a questão dos festivais….  Ser um DJ da “rua” traz algum tipo de reconhecimento e projeção diferente daquele DJ que se apresenta em clubs caríssimos extremamente privados e seletivos. Estou mantendo um projeto há duras penas, até hoje não consegui ganhar nenhum dinheiro com o que eu faço, porém, as pessoas reconhecem e me agradecem como algo bonito e legal pelo fortalecimento da música eletrônica na cultura musical do brasileiro, e o novo ar de muitos novos talentos que estão aí para representar a cena eletrônica paulistana: tudo pela Arte!

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Batata Eletrônica

Anapress – Existe alguma rivalidade entre diferentes DJs e coletivos? Há comunicação entre eles, são feitas parcerias para realizar, beneficiar e divulgar estes eventos?

Alan Max – O mundo das festas e dos coletivos é tudo um teatro meramente figurativo onde prevalece sempre a troca de favores e interesses privados. A maioria das festas não tem consciência e nem sequer paga adequadamente o cachê dos artistas, a própria cena não considera o artista seja DJ ou produtor musical como um trabalhador da Cultura/Arte, a maioria dos benefícios que um DJ tem é uma comanda para poder consumir álcool e bebidas (bem miguelado ainda), ser DJ ainda não é algo visto por muitos como um trabalho sério. Existem sim muitas rivalidades e egos! Principalmente entre clubs importantes  que agem dentro da máquina de governo para prejudicar terceiros.  Tem espaço para todo mundo!

Anapress – O artista que atua nas festas é somente o DJ?

Alan Max – Nas festas atuam diversos profissionais para fazer de fato a coisa acontecer!!! Como no caso da Batata Eletrônica se trata de uma festa de rua, o que faz acontecer é o público vir prestigiar e apoiar o projeto! Na prática temos que trabalhar em diversas frentes: pesquisa musical, produção musical, marketing, mídias sociais, ser segurança para conter os abusados, varrer a rua, fazemos de tudo!

Anapress – Estes eventos criam oportunidades de emprego?

Alan Max – Improvável.

Anapress – Quais benefícios as festas de rua trazem para o comércio e economia dos bairros e cidades onde acontecem?

Alan Max – O comércio ambulante e formal é bastante beneficiado pelas nossas festas mas não respeitam o projeto e muitas vezes agem de forma truculenta.  Tudo bem que eles são trabalhadores dignos tanto como nós, mas seria necessário que houvesse um respeito em manter um perímetro para o comércio de qualquer coisa para não afetar o andamento da coisa. Eles se beneficiam da festa e não dão contrapartida. Estamos enfrentando sérias dificuldades financeiras e nem conseguimos fazer um “barzinho” porque acontece uma invasão de ambulantes. Se organizasse direitinho todo mundo ficaria feliz !

Batata Eletrônica

Batata Eletrônica

Anapress – Como você observa a realização de festas de rua gratuitas em São Paulo?

Alan Max – O público também não faz muito a sua parte! O brasileiro não tem a cultura de respeitar as coisas, principalmente quando é de graça! Muitas vezes se fizéssemos um bar para apoiar o projeto o sujeito ainda compraria do ambulante (mesmo sendo nosso produto mais barato). Por esse motivo desistimos de fazer um bar.  O público não cuida do lixo, joga os resíduos em qualquer lugar… E muitos faltam  o respeito com o lugar, o projeto e as pessoas! Mas no fim todo mundo se ajuda, um cuida do outro e tudo no final dá certo!

Anapress – Como estes eventos são viabilizados?

Alan Max – Com muito suor, trabalho e falta de grana!

Anapress – Estas festas correm o risco de não continuar acontecendo com a gestão do atual prefeito de São Paulo?

Alan Max – A maioria das festas de rua já encerraram suas atividades, estão permanecendo dentro dos clubs; a Batata Eletrônica e alguns outros poucos coletivos é que continuam levando a cabo dessa missão tão difícil, principalmente em tempos como estes que estamos vivendo.

Anapress – Como está o relacionamento dos coletivos de festas de rua independentes com a prefeitura paulista?

Alan Max – Espero que deixem o projeto continuar! É bom para os jovens, é bom para São Paulo!! Música eletrônica também é Cultural!!! Por mais opções para os jovens, a música já salvou a vida de muita gente, inclusive a minha!!!

Anapress – Com a atual gestão a realização do Mês da Cultura Independente que acontece na cidade de São Paulo está ameaçada?

Alan Max – Estou rezando para sermos escolhidos novamente para participar. É a única esperança de ver nosso projeto continuando no segundo semestre de 2017.

Anapress – Qual sua opinião sobre as modificações que aconteceram na Virada Cultural, transferindo alguns eventos do centro da cidade para bairros afastados?

Alan Max – O problema da Virada Cultural ser no Centro é o mesmo problema que acontece todo Carnaval. Policiamento zero, as autoridades viram as costas e largam o público à mercê de tudo o que pode acontecer em evento que aglomera massas. Essa mudança a meu ver, é mais uma tentativa de beneficiar empresas com atrações culturais que não tem mera significância para o público. Devemos ocupar a nossa cidade, devemos nos sentir paulistanos! Estreitar os laços de afeto com nossa cidade! O centro é de todos!

Anapress – O leigo não observa qualquer qualidade artística na música eletrônica, ele a chama de “bate estaca”. Como mudar este conceito?

Alan Max – O leigo tem o direito de achar isso, afinal gosto é gosto, porém, o significado da música ela se transforma com o tempo.  A música eletrônica tem total sentido para quem vive numa cidade grande, com o tempo contado no relógio industrial, sempre olhando para a própria individualidade,  é a música dos tempos modernos! Assim como uma canção sertaneja não faz nenhum sentido parta uma criança que nasceu depois dos anos 2010 e não ouvimos uma música de Mozart ou Beethoven com os mesmos ouvidos do século XIX.

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Batata Eletrônica

Anapress – Os coletivos de festas de rua têm conseguido democratizar e compartilhar a cultura Rave?

Alan Max – Eu não chamaria de cultura Raver ou Clubber,  chamaria  este fenômeno de cultura pós-moderna cibernética (algo parecido com o que foi a Contra-Cultura do movimento hippie dos anos 1960 de sexo, drogas e rockn roll), e sim tem cumprido a missão, a música eletrônica tem se popularizado bastante na América Latina; mas principalmente nas grandes cidades, nas periferias ainda prevalece aquela cultura que chamamos tradicional.

Anapress – Qual a importância desta democratização e compartilhamento?

Alan Max – A democratização desse tipo de cultura tem muito haver com o fenômeno da liberdade de expressão e curtir a “cultura do seu tempo”, meus pais ouviam Disco, meu filho vai curtir Techno e vai poder ser o que ele quiser ser.  Hoje somos muito mais donos de nossas consciências e de nossos corpos.

Anapress – Quais benefícios isso traz para seus participantes e realizadores?

Alan Max – De fato muitas pessoas vem falar comigo e dizem : – “Poxa cara que legal o que você esta fazendo pela cena, as pessoas precisam mais disso”. Como DJ acredito que tudo tem seu tempo e ocorre no momento certo!  Aprendi a discotecar criando a minha própria festa, mas fico feliz de poder ajudar a escrever algumas páginas de um capítulo da história da música eletrônica em São Paulo.

Anapress – Qual a importância de ocupar espaços públicos com as festas de rua?

Alan Max – Deve ser feito em constante diálogo  e parceria com as diversas vozes ativas que fazem as coisas acontecerem no local, tem que ter muito respeito!  Tem muita gente que cuida do jardim da praça e as vezes não é notada; o amor de um artesão que resolveu criar um banco de madeira para que as pessoas pudessem sentar; cada um ajuda com o que tem e o que pode, a Música e a Arte tem o poder de fazer as pessoas se esquecerem um pouco da dureza da vida, dos problemas, isso é um bem que não pode ser mensurado para o ser humano.  Somos gratos por saber que nosso trabalho deixa as pessoas do Largo da Batata mais felizes!!!  O coração é nosso símbolo! Porque é tudo feito pelas pessoas!

Anapress – As festas de rua sofrem grande discriminação pelo fato do público, em sua maioria jovens, consumirem álcool e drogas no decorrer das apresentações. Vocês fazem algum trabalho de conscientização entre seu público e a população em geral para mudar este estigma?

Alan Max – As festas de rua sofrem grande preconceito porque é um lugar de encontro, tanto do playboy do bairro nobre quanto do jovem da periferia. A nossa festa tem sim um caráter social, todas as edições arrecadamos alimentos e roupas para doar para instituições de caridade e assistência;  achamos a questão das drogas um sério problema que deve ser encarado como um problema de saúde e não de policia. Devemos lembrar sempre que vivemos em um pais desigual, advertimos sempre o público pela conscientização e do perigo das drogas, no entanto, nossa festa é o lugar da liberdade de ser quem você quiser ser, respeitamos as diversidades.  A relação entre música e drogas é uma questão antropológica que muitas vezes se confunde com a religião (começo da entrevista que você me perguntou).  Se faz parte do ritual usar drogas a questão do narcotráfico  com certeza não é culpa da música eletrônica.

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Batata Eletrônica

Anapress – Em alguns estados do Brasil existem projetos de lei sendo discutidos visando a proibição das Raves e festas de rua. Em alguns locais elas já são proibidas como em Vila Velha no Espírito Santo e Londrina no Paraná. Organizadores e coletivos atuam de alguma maneira para impedir a aprovação desses projetos?

Alan Max – Não tenho elementos para responder.

Anapress – Para alguns admiradores de festas Rave o alto consumo de drogas e a queda na qualidade musical estão afastando muitos frequentadores destes eventos. Isso realmente está acontecendo?

Alan Max – Queda da qualidade musical é uma questão de indústria fonográfica e labels de música eletrônica, a relação cultural disso com as drogas é totalmente relativa, não dá para julgar, nem condenar. Aposto que as melhores e as piores tracks foram feitas sob o efeito dessas substâncias psicoativas expansoras de consciência: como saber o que existe do outro lado das portas da percepção?

Anapress – Muitos participantes declaram que não existe Rave sem drogas, principalmente as sintéticas. Uma Rave sem drogas é possível?

Alan Max – Um mundo sem drogas é possível?

Anapress – Qual a sensação de participar de uma Rave pela visão do DJ?

Alan Max – Nunca toquei em uma rave, estou aguardando convites! Oportunidade de ganhar alguns vinténs!

Anapress – Como são divulgados seus eventos?

Alan Max – Toda nossa comunicação é feita através das redes sociais (facebook, youtube, instagram)

Batata Eletrônica
(11) 9.4551-3767
@batataeletronica
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Alan Max

https://soundcloud.com/djalanmax
https://www.facebook.com/djalanmax

 

 

 

Por: Edna Pessanha
Fonte: Phouse / Wikipédia