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Flavio um artista et cetera…

8Poeta, artista múltiplo e autodidata. Especializado em desenho, escultura, cerâmica, gravado em metal, madeira, pedra (litogravuras e xilogravuras), joalheria, talha em Madeira, pintura, pintura em vidro e outros materiais não convencionais, além de direção de teatro e cinema. Estas são algumas das tantas habilidades do argentino radicado no Brasil Flavio Dario Pettinichi.

Anapress – Por que escolheu o Brasil para morar?

Flavio Dario Pettinichi – Vim morar no Brasil nos anos oitenta, conheço boa parte do país, estou em Santa Catarina porque há cinco anos me casei com uma gaúcha, Lou Witt, poetiza de palavras cheias. Tenho trabalhado em várias disciplinas de arte e escultura. Atualmente estou preparando um projeto sobre arte sustentável, já ministrei aulas de fotografia, desenho, pintura, artes gráficas, e agora vou começar com o entalhe.

Anapress – Como foi seu primeiro contato com a arte?

Flavio Dario Pettinichi – Nasci dentro de um ambiente de arte, meu pai era artista plástico e diretor de teatro na Argentina, ou seja, meu primeiro contato foi ter nascido nesta família. Vendi meu primeiro quadro, gravura, aos onze anos e minha primeira exposição foi aos doze anos, com trabalhos de entalhe em madeira, mas nunca mais fiz entalhe até os 54 anos, quando retomei essa disciplina.

2Anapress – Que mudança ela trouxe para sua vida?

Flavio Dario Pettinichi – Fazer arte é uma entrega, viver da arte é uma escolha difícil de ser colocada em prática. As mudanças? Não sei, só sei que ela me trouxe a felicidade de ter escolhido o caminho certo aos onze anos e perdura até hoje.

Anapress – Por que escolheu trabalhar com madeira? Já trabalhou com outros materiais?

Flavio Dario Pettinichi – Como já te falei aos onze anos fiz a minha primeira exposição de entalhes em madeira, ainda no primeiro grau, mas foi só por um acaso do destino, depois continuei a estudar, por a minha conta, muitas outras disciplinas, desde desenho até joalheria, passando pela pintura, cerâmica, gravura, etc. Durante um bom tempo trabalhei muito com esculturas feitas de sucata de ferro, para uma galeria do Rio de Janeiro e Buenos Aires, na Argentina, mais de cem esculturas andam pelo mundo.

Anapress – Como foi o início desse trabalho?

Flavio Dario Pettinichi  – Falando na questão do trabalho da escultura em madeira, recomecei há três anos mais ou menos, pois fui morar num lugar onde eu sabia que ia ter muito contato com este material e fiz a escolha certa de novo.

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Anapress – Onde você busca inspiração para fazer suas esculturas? Sofreu ou sofre influência de outro artista?

Flavio Dario Pettinichi – Eu geralmente procuro inspiração na própria madeira, tenho que achar a forma nela, é ela quem vai me falar e dizer o que tem escondido dentro dela. Hoje eu busco inspiração, e técnicas com grandes mestres do entalhe, dentre eles os russos, poloneses e filipinos, todos pela internet.

Anapress – Você compra a madeira com que trabalha ou recolhe troncos caídos?

Flavio Dario Pettinichi  – A maioria do material utilizado é resgatado da beira-mar, eu moro num lugar que tem quarenta praias, às vezes compro lenha em bruto, madeira retirada dos leitos dos rios, árvores caídas pelos temporais e quando tenho que fazer algum trabalho comercial, geralmente compro em madeireiras credenciadas.

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Anapress – Como você define seu estilo?

Flavio Dario Pettinichi – Eu acredito que ainda não encontrei um estilo próprio, sou bastante naturalista figurativo fantasioso!  Hoje, isto não quer dizer que amanhã vou seguir pelo mesmo estilo, estou todo o tempo num processo de pesquisa, seja porque descubro novas formas, ferramentas, madeiras ou ideias. Meu Estilo é criar 24 horas por dia!

Anapress – Como é seu processo de criação?

Flavio Dario Pettinichi – Para quem vive da arte, como é o meu caso o processo criativo tem várias facetas, primeiro é a responsabilidade de estar todo o tempo consciente que o primeiro a prevalecer é o respeito pela obra e pelo possível comprador ou observador. Mas vamos lá, geralmente eu preparo vários desenhos em diferentes ângulos e diferente probabilidades de chegar até a obra, pois tudo depende do grau de complexidade, material e ferramentas a serem utilizados para a sua realização.

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Anapress – O que é a escultura para você?

Flavio Dario Pettinichi – A escultura para mim, é uma das disciplinas mais sublimes dentro de lãs artes visuais, pois nela estão inseridas muitas outras disciplinas como: desenho, pintura, gravado, literatura, arquitetura, e por sobre todas as coisas o conhecimento geral das coisas, uma escultura sem história é um objeto vazio.

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Anapress – Qual conhecimento sobre ferramentas e variedades de madeira é necessário para fazer este tipo de trabalho?

Flavio Dario Pettinichi – Mais que conhecimento de ferramentas o que é necessário é saber o que vamos querer fazer, ter noção de desenho é fundamental, goivas (ferramenta de entalhe) são importantes para começar, não e necessário ter cem goivas caras, quando se cria as ferramentas também vão se criando de acordo com as necessidades. Hoje existem muitas opções de ferramentas modernas para aliviar o trabalho, tudo vai depender de qual trabalho, mas o fundamental é: papel, muito papel para desenhar, lápis preto, um pedaço de madeira e um jogo de goivas de oito peças, o resto vem com o tempo. O assunto das madeiras vai de cada realizador, ou seja, cada um vai se adequar a um tipo de madeira, mais duras, mais leves, com texturas, lisas, grossas ou finas. Só o tempo vai dando o conhecimento real da madeira que vamos nos sentir mais cômodos para trabalhar, hoje no Brasil ter boa madeira é um problema, porque muitas são proibidas de cortar e as que se podem cortar, legalmente, também enfrenta dificuldades burocráticas. Madeiras nobres para esculturas são quase impossíveis de conseguir. Cedro, canela, ipê e muitas outras.

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Anapress – Existe algum tipo de madeira que seja proibido utilizar?

Flavio Dario Pettinichi – Sim existem várias, dentre elas as aqui mencionadas: Castanheira (Bertholetia excelsa), segundo decreto 5.975/2006; Mogno (Swietenia macrophylla), segundo decreto 6.472/2008; Seringueira (Hevea spp), segundo decreto 5.975/2006. Porém existe toda uma burocracia para a extração ou utilização de muitas outras, mais de 270 espécies, o que faz com que o artista que trabalha com madeira esteja sempre muito limitado. Os órgãos que controlam isto são quase todos federais, mas tem os estaduais, e municipais, lembrando que cada estado tem a sua lei própria para a questão ambiental e ecológica. Eu acho que mais que proibir o que se deve fazer é um trabalho de educação e conscientização geral nas escolas, nas de arte principalmente. Pode se reutilizar muita madeira que foi confiscada pelos órgãos fiscalizadores, pode ser utilizada muita madeira de árvores que foram atingidas por temporais, etc. E também se pode pedir aos realizadores que façam plantios solidários, nas praças ou parques, enfim, mil coisas podem ser feitas para realizar arte sem fazer dano na natureza.

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Anapress – Você tem um tipo preferido de madeira para trabalhar?

Flavio Dario Pettinichi  – Não tenho uma preferida, mas gosto muito da Canela e o Cedro Rosa.

Anapress – Quanto tempo você demora para executar uma peça?

Flavio Dario Pettinichi – Depende da complexidade da obra, mas, na media de três a quatro dias em peças pequenas.

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Anapress – Você consegue viver exclusivamente de seu trabalho?

Flavio Dario Pettinichi – Sim, atualmente eu só vivo do meu trabalho de entalhe e esculturas em madeira, não e fácil, mas tampouco é impossível!

Anapress – Você não reside em um grande centro do País, como você divulga e comercializa seu trabalho?

Flavio Dario Pettinichi – Pode parecer contraditório, mas eu vivo num lugar, turístico, Governador Celso Ramos, Santa Catarina entre o  campo e as montanhas, onde os meus clientes têm tempo de apreciar o meu trabalho, tomar um café, conversar no atelier, e divulgar de boca em boca o trabalho. Isto faz que quem vem comprar não adquire um “produto”e sim uma obra feita por alguém que eles conheceram realmente. Muitas vezes eu os sento junto comigo no computador e trabalhamos juntos na ideia geral do serviço a ser realizado, isto cria uma confiança e uma cumplicidade interessante, onde o artista passa a ser um amigo e não aquele ser que está sempre além do mal ou do bem (risos).

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Anapress – O mercado brasileiro atualmente está propício para bons negócios em se tratando do trabalho que você faz?

Flavio Dario Pettinichi – Em se tratando de artes nunca o mundo foi propício, não só o Brasil, mas por outro lado se o seu trabalho for diferenciado, isto quer dizer, feito com respeito e responsabilidade, seguramente se pode conseguir um bom resultado.

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Anapress – Você divulga sua arte também pela internet. Como fazer com que a arte alcance o grande público?

Flavio Dario Pettinichi – Eu divulgo pela internet há anos e isto não quer dizer que vendi mais ou menos obras, até porque uma obra de arte ou um artesanato (a não ser que seja chinês) é algo muito pessoal, as pessoas têm que sentir “in situ” o produto. Acredito que a arte nunca tem um grande público comprador, pode ter milhares de apreciadores, mas não de compradores, se você quer um grande público tem que ter um marchand e isto requer muito tempo e trajetória, sem contar que você vai ter que trabalhar para um alguém que compra a tua obra por quilo e não por um valor emocional, o que não quer dizer que esteja errado, só são coisas diferentes, tive um marchand durante três anos, ganhei bastante dinheiro nessa época, até que para ele deixou de ser negócio e montou uma fábrica de biquínis!

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Anapress – Qual é sua maior satisfação em seu trabalho?

Flavio Dario Pettinichi – O sorriso de quem o leva para sua residência.

Atualmente Flavio organiza o Projeto “Madeira, consciência e arte sustentável”.

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Por: Edna Pessanha