Memórias entre os pontos da linha 106-A Santana-Itaim

Pedro, hoje com quarenta e quatro anos, faz uma descoberta e toma uma decisão: reviver memórias de sua infância no banco detrás do motorista do ônibus da linha 106-A Santana-Itaim, em São Paulo. Entre caminhos percorridos vinte e sete anos antes pelo seu pai, que havia sido motorista do coletivo por 30 anos, ele revive detalhes dos trajetos, histórias e fantasias criadas pela imaginação rica de criança e se recorda de personagens e momentos mágicos vividos dentro do veículo.

Em seu livro de estreia, Entre Pontos, o publicitário e escritor J.L. Amaral relata de forma leve e delicada episódios vividos pelo garoto Pedro desde os sete anos de idade dentro do ônibus em que o pai, seu Álvaro, trabalhava. Pedro saía da escola no começo da tarde e fazia todos os dias o trajeto com o pai, já que a mãe, dona Izabel, e os irmãos mais velhos, Jorge e Maria Júlia, trabalhavam durante o dia e estudavam à noite e não tinha alguém para ficar com ele.

Naquele banco, Pedro brincava, lanchava, dormia, conhecia e conversava com pessoas. Imitava o cobrador, fazia lição, estudava. Muitas redações foram feitas para as aulas de língua portuguesa usando narrativas contadas ou vividas ali. A letra ficava horrível porque chacoalhava demais, enquanto mantinha os cadernos apoiados nas pernas. Em época de prova, era aprendizado em grupo. Lia em voz alta capítulos de geografia, tentando memorizá-los e, quando menos esperava, todos confabulavam se os Montes Urais ficavam na Europa ou na Ásia.

Dali, observei vidas serem, também, passageiras. Pude compartilhar momentos preciosos com seu Álvaro, passar um tempão com ele, aprender com seus exemplos. Qual criança teve um privilégio desses? Assistir orgulhoso ao trabalho do pai. De camarote. Infância boa, formou meu caráter, moldou a personalidade. Fui testemunha de tantas histórias que, com doze anos, já tinha decidido o que seria quando crescesse. Médico, para cuidar de pessoas. (p. 4)

Em uma narrativa fluente que prende o leitor do início ao fim, J.L. Amaral transforma o espaço restrito de um ônibus em um ambiente repleto de histórias que extrapolam as janelas do coletivo. Cada memória vivida nestes percursos urbanos é capaz de comover, emocionar e fazer com que cada um passe a olhar a vida com mais esperança e otimismo. A obra ainda transmite lições preciosas de solidariedade e sobre como lidar com a diversidade de cada um.

Por: Adriane Galdino