Cancelamentos, desorganização e pouco público marcaram as feiras de negócios em 2017

Um dos grandes motores da economia são as feiras de negócios, que colocam as empresas grandes, médias, pequenas e micro frente a frente e com as mesmas oportunidades de disputar a atenção dos compradores, os quais visitam as feiras em busca de oportunidades. As feiras de negócios são ferramentas valiosíssimas por sua importância e por sua capacidade agregadora e de divulgação de marcas, produtos e conceitos, e por isso precisam ser bem aproveitadas com um planejamento cuidadoso e o comprometimento de seus principais atores: o promotor da feira e o expositor.

Uma feira é um momento mágico para a empresa expositora contar ao mercado a história da sua marca e do seu DNA, e ainda mostrar os seus produtos e serviços para clientes e prospectores de negócios.

Uma feira tem um efeito multiplicador na geração do turismo de negócios, movimentando toda a cadeia de serviços nas cidades onde acontecem e impactando de forma muito positiva na hotelaria, transporte, gastronomia, entretenimento e compras, gerando empregos e renda. Estes eventos são o termômetro da economia brasileira, quando os setores econômicos vão bem as feiras refletem os bons ventos da conjuntura econômica, quando há retração as feiras de negócios conseguem funcionar como mola propulsora para um determinado setor econômico, contribuindo para a geração de negócios. Por mais que a internet e outras formas digitais de comunicação facilitem o contato entre os parceiros comerciais, não há nada que substitua o contato olho no olho entre produtor e canal de distribuição.

Pequenas, médias empresas e startups, que participam das feiras de negócios têm a chance de conquistar novos clientes oriundos de todo o país e do exterior, a feira é uma mídia presencial, é a maior e mais diversificada vitrine do setor produtivo, um grande espaço democrático, onde todas as empresas podem participar. Em um mesmo lugar, indústria, varejo e atacado podem negociar e criar parcerias. Todos os setores da economia são beneficiados com a realização de feiras de negócios, que geram riquezas e beneficiam a economia local e nacional. O Brasil com suas peculiaridades, riqueza e conhecimento das necessidades específicas de cada mercado tem potencial para realizar feiras de sucesso e garantir um desenvolvimento assegurado e tranquilo, avalizando investimentos em infraestrutura e novos espaços para exposições, além ampliar o conhecimento sobre as diferentes regiões brasileiras.

Amadorismo

Organizar feiras se tornou um bom negócio, atraindo os mais diferentes tipos de investidores para este lucrativo empreendimento, entre eles muitos amadores. É comum casos de expositores que se encantaram e se iludiram com o tamanho e visitação das feiras das quais participam, e se aventuram a organizar seus próprios eventos desprovidos de conhecimento e de preparo adequado para atuar no setor.

Este, como outros mercados exige um aperfeiçoamento constante das práticas profissionais e das ferramentas empregadas no trabalho cotidiano.  Além do estudo do nicho de atuação, pesquisa de mercado, especialização em eventos, administração, comunicação e marketing, o que nos faz crer que muitos dos novos organizadores que se aventuraram a organizar feiras e eventos desconhecem como exercer esta atividade.

O objetivo de quem organiza uma feira de negócios deve obrigatoriamente ser muito mais do que vender somente o m2, uma feira precisa gerar e oferecer oportunidades de bons negócios tanto para expositores quanto para o público visitante, caso contrário não irá sobreviver. Houve época que não era necessário vender uma feira no Brasil, pois seus espaços eram facilmente comercializados, e a preocupação com pesquisa de mercado não era relevante, uma vez que seus visitantes compareciam às feiras sem necessidade de um grande esforço de marketing.

Porém, os anos dourados terminaram as empresas não continuaram a participar de uma feira sem esforço, a procura deixou de ser superior à oferta. Entender as necessidades do cliente passou a ser fundamental, e a qualidade dos visitantes atualmente é mais importante do que a quantidade dos mesmos. Isso leva a uma reflexão profunda, o momento exige dos principais promotores de eventos a necessidade de reinventar o conceito de feira e entender que o foco está em proporcionar ao expositor todas as condições para que ele comercialize seus produtos, mas também e principalmente captar o melhor visitante para cada feira, conhecer seu perfil, sua necessidade e oferecer soluções para esta necessidade, é o que marca a diferença entre as feiras.

O público visitante tornou-se muito mais informado, espera obter experiências, conhecimento e que a feira lhe ofereça possibilidades de networking, exigindo muito mais informação do promotor do que no passado, onde reagia por impulso. Hoje investiga, verifica se os dados apresentados pelo promotor são reais, prepara a sua visita e seleciona a melhor feira para visitar. Uma feira deixou de ser um negócio para organizadores e expositores, mas também um negócio para os visitantes, pois sem visitantes não há feira, então o que temos que entender são os desejos dos nossos visitantes.

Pequeno público grandes negócios

No Brasil as maiores e mais conceituadas feiras de negócios, em sua maioria são bem organizadas e relacionadas à economia criativa. Em 2017 tiveram bom público, embora com menor volume de vendas, tanto organizadores como expositores ficaram satisfeitos com os resultados e não amargaram prejuízos. O comparecimento foi alto, mas com poucos compradores, o fato destes grandes eventos terem seus nomes citados na mídia foi um fato positivo.

Alheios à crise

Mas nem tudo é positivo, em estados distantes dos grandes centros do país, como nordeste e centro oeste, muitas feiras foram canceladas devido à falta de adesão dos expositores. Os organizadores não atentaram para a conjuntura econômica pela qual o Brasil está passando, venderam espaços como se não houvesse crise, mantiveram os mesmos preços ou até aumentaram o valor de seus estandes, não divulgaram adequadamente seus eventos, dispensando a grande mídia ou assessoria de imprensa, quando muito, fizeram uma pequena panfletagem ou anúncios em jornais de bairro, é comum feiras de verão não receberem a visita de turistas, somente da população local.

Outra dificuldade é a inviabilidade do envio das mercadorias. Por avião os preços são proibitivos, por estrada, os caminhões são interceptados por ladrões, os expositores não têm condições de pagar o alto preço cobrado pelas seguradoras e acabam por perder suas mercadorias.

Em outras situações, nestes mesmos lugares, alguns expositores abandonaram a feira antes do término devido ao baixo volume de venda, e consequentemente não levantar dinheiro sequer para pagar os custos com hotel e passagem de volta para suas casas.

Saturação de mercado

Outra questão que contribuiu para o insucesso de muitos eventos foi sua multiplicação, em alguns estados aconteceram várias feiras em sequência, em cidades diferentes, às vezes organizadas pela mesma empresa, com custo de organização baixo, mas sem público para comprar. Em uma ocasião foi permitido ao expositor assinar contrato e pagar pelo estande depois, algo completamente incomum neste tipo de negócio, devido a este acordo, uma das expositoras foi obrigada a deixar toda a sua mercadoria para a empresa que organizou a feira, uma vez que ela não vendeu o suficiente para pagar pelo estande, prática esta ilegal. Caso contrário receberia boletos de cobrança de sua dívida em casa.

Muitos eventos se tornaram iguais, sem nada que os distinga, feiras chamadas de regionais não trouxeram nenhum produto da região em que acontece, ou apresentaram produtos díspares da proposta da feira. Algumas empresas organizadoras não conseguiram comercializar todo o pavilhão de exposições, para quitar o valor do espaço, devido ao número insuficiente de expositores, acabaram por vender para quem se interessou em comprar, independente do produto a ser exposto para venda. Foi possível encontrar em feiras de tradições gaúchas, barracas que vendiam óculos de sol, produto que não é típico da região, o que acabou por descaracteriza por completo o evento. Nas feiras de malha foi vendido também artesanato e relógios, entre outros produtos, não apenas malhas. As feiras alegam que não conseguem vender todo o evento e precisam pagar os custos.

É comum ouvir reclamações por parte dos visitantes de que não encontram nada de diferente do que é vendido nos grandes centros, como a Rua 25 de março em São Paulo, isto afasta muitos visitantes que não voltam para a feira do ano seguinte.

Sem novidades

As feiras de negócios deixaram de ser ocasião propícia para o lançamento de novos produtos, se transformaram em uma espécie de loja móvel, onde vendedores nômades viajam pelo Brasil comercializando seus produtos sem levar novidade alguma.

ICMS

Em alguns estados é cobrado o ICMS, Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços, o expositor é obrigado a pagar o imposto referente à região em que ele está expondo, aqueles quem não possuem as devidas notas fiscais tem sua mercadoria apreendida pela fiscalização que visita a feira, obrigando-os a pagar as devidas multas para liberar as mercadorias, ou deixá-las com os fiscais. As empresas organizadoras não se preparam para este tipo de exigência, não se informam e não sabem orientar os expositores de como eles devem proceder, isto faz com que expositores de um determinado estado não participe de um evento onde ele necessite pagar algum tipo de imposto, contribuindo para diminuir o número de expositores interessados em participar das feiras que acontecem por todo o país.

Para Osmar Soares da Silva que é expositor em eventos de São Paulo e em outros estados, as empresas organizadoras praticam uma má gestão de suas feiras, se importando somente em vender seus estandes, e não em proporcionar condições para que o expositor comercialize seus produtos. “O organizador deve saber fazer propaganda, fazer o evento em lugar adequado, se em uma feira vendemos bem, no próximo ano o expositor vai procurar participar desta feira novamente. Mas é preciso fazer propaganda e vender a feira para o visitante de novo, mas não é isto o que acontece, no ano seguinte, a empresa simplesmente vende o espaço sem se importar com o expositor, acha que é só fazer a feira novamente”. Diz.

Ainda segundo Osmar, feiras realizadas em outras localidades, onde os expositores não podem ir até o local averiguar suas reais condições, somente sendo possível vê-los por fotografias disponibilizadas pelos organizadores, geralmente são feitas em locais inadequados, com propaganda enganosa. “Eles não informam corretamente qual o perfil do público, precisamos saber disso para saber se o nosso produto irá vender. Temos também que contabilizar o carreto, hospedagem e nota fiscal, fica inviável ir para outros estados expor. Devido à crise, muitas pessoas querem vender alguma coisa nas feiras, geralmente qualquer produto, prejudicando os expositores antigos que atuam no setor de arte e artesanato. O organizador não se importa com isso, simplesmente vendem o espaço. Deve-se ter zelo e atenção com o expositor, se o expositor quebrar, eles vão quebrar também, os novatos estão prejudicando os mais antigos. Também o excesso de eventos dilui o público, muitos organizadores fazem feiras em um mesmo espaço, quando é feita uma boa feira em um bom espaço, outros organizadores fazem feiras no mesmo espaço, em um mês acontecem muitas feiras e o público não frequenta muitas feiras, isso prejudica o expositor. Alguns expositores querem ser organizador de feiras sem preparo para isso, só se importam em vender o espaço”. Salienta.

Para a artesã Ana Paula de Souza Bevenuto, proprietária da Flor de Jambo Acessórios, muitos iniciantes veem na organização de feiras uma maneira de ganhar dinheiro fácil sem proporcionar uma estrutura adequada para receber os expositores. “Não nos é disponibilizado o básico como ar condicionado e divulgação, por exemplo. Devido à crise pegam algo para ganhar dinheiro, divulgam somente pelo facebook, sem TV, o expositor investe grandes somas e não tem o devido retorno. O primeiro evento é sempre para ganhar cliente, fazem tudo corretamente para deixar o expositor satisfeito depois, nos próximos, não divulgam, acham que não necessita de promoção, fazem isto somente pela internet. Se aproveitam do desemprego, de pessoas que querem vender algo, fazem contratos sem se importar com o expositor, os eventos não tem público, não tem atração especial, um atrativo que chame atenção, muitos expositores quebram por investir e não ter retorno. Os organizadores não pedem foto do produto, apenas se interessam em vender o estande, não selecionam o produto e o tipo de público, é comum vermos vários expositores com o mesmo produto, um irá prejudicar o outro. Há muitos picaretas no mercado que se preocupam em pegar o dinheiro do expositor sem se preocupar em dar condições para que ele comercialize seus produtos. Se o evento for bem organizado e divulgado o evento acontece”. Diz.

Para Marcelo Vital Brasil presidente do conselho de administração da UBRAFE, União Brasileira dos Promotores Feiras, nos últimos anos, ocorreu um aumento significativo no número de feiras de negócios nos calendários.  O que leva à falsa impressão de que o setor está em franco crescimento. O que não é verdade, pois a maioria dessas feiras não passam da segunda edição, seus organizadores não conseguem continuar a sua atividade por comportamento empreendedor pouco desenvolvido, falta de planejamento e gestão deficiente do negócio. Aquele que é o chamado aventureiro e imagina que para realizar feira de negócios basta sonhar a noite e no dia seguinte lançar o evento, vai se frustrar. Feira é um negócio complexo e requer conhecimento, força de vontade, dedicação, renúncia à vida pessoal e firmeza de propósitos.

Ainda segundo Marcelo, já vem sendo realizado, um trabalho conjunto e mais agressivo das promotoras, coordenado pela UBRAFE, para reforçar a imagem das marcas das feiras. “As feiras sempre foram e continuarão sendo ótimas ferramentas de marketing para as empresas. Além desse trabalho de sustentação e valorização do produto feira, que é um dos nossos objetivos também, temos procurado investir e muito na qualificação profissional desse setor, para que possam melhorar a qualidade dos produtos e serviços oferecidos ao mercado. A UBRAFE sempre buscou oferecer e indicar cursos profissionalizantes e de aperfeiçoamento para os funcionários de seus associados. Entendemos que somente através da qualificação da mão de obra, em todos os segmentos de uma empresa é que se poderá prestar o melhor serviço e entregar o prometido ao cliente. Em parceria com o SINDIPROM – Sindicato das Empresas Promotoras, Organizadoras e de Montagem de Feiras, Congressos e Eventos do Estado de São Paulo, temos realizado vários convênios e oferecido concorridos cursos de certificação a exemplo das Normas Técnicas inerentes a nossa atividade como as de trabalho em altura e a do uso de EPI equipamento de segurança e proteção individual, ou ainda os cursos para certificação internacional em feiras e eventos, o CEM – Certified Exhibitions Management, em convênio com a New Events Global, da Europa”. Informa.

Para Cassius Gama, Conselheiro Instituidor da ABAC, Agência Brasileira de Apoio à Cultura, que viabiliza para seus associados a participação em feiras e eventos, os organizadores muitas vezes fazem um falso plano de mídia. “Os expositores vão às feiras pelas informações que recebem, eles devem saber escolher os eventos que vão participar, e ter outros meios de comercializar seus produtos. As empresas organizadoras vão com sede ao pote, está muito caro o m2”. Diz Cassius.

A troca de informações sobre os eventos dos quais participam, tem sido uma importante arma utilizada por expositores das mais diferentes feiras que acontecem por todo o Brasil. A tecnologia é uma aliada poderosa, no mesmo momento em que está acontecendo o evento do qual participam, eles imediatamente via WhatsApp, informam seus pares sobre sua organização, qualidade dos estandes, do público, volume de venda, lucros, prejuízos, e tudo o que envolve a feira da qual estão participando, inclusive entre expositores que não se conhecem, mas fazem parte do mesmo grupo de WhatsApp, contribuindo assim para que a referida feira seja bem ou mal avaliada, influenciando positiva ou negativamente na procura por seus estandes em uma próxima edição.

Guia de Quem Faz – Quem procura acha. Fácil de procurar, fácil de achar !

Visando contribuir para que expositores não continuem a ter dificuldades e prejuízos em suas participações em feiras e eventos, além de receberem orientações de onde investir, A ABAC, irá lançar no primeiro bimestre de 2018 o GUIA DE QUEM FAZ, um moderno  portal do tipo guia de empresas e negócios, exclusivo para  o cadastramento de artistas , artesãos e empreendedores da economia criativa, em suas respectivas especialidades, que desejem receber informações por e-mail ou em seus WhatsApps, sobre os eventos que irão acontecer em todo o Brasil, bem como sobre negócios e oportunidades para o seguimento.

Haverá uma versão anual impressa e o cadastro inicial é totalmente gratuito, podendo o empreendedor optar por vantagens exclusivas pagando uma pequena  assinatura anual a título de manutenção do portal e dos serviços oferecidos.

O GUIA DE QUEM FAZ irá contribuir efetivamente para que os organizadores de feiras e eventos busquem qualificar a si próprios, e os serviços proporcionados a seus expositores, além de dar visibilidade permanente a empreendedores dos vários seguimentos da economia criativa situados em qualquer parte do território nacional, propiciando ainda uma divulgação permanente do seu negócio .

Todos poderão se cadastrar a partir de fevereiro e no endereço:  www.guiadequemfaz.com.br

Para receber nosso contato para informações, outras orientações, ou ainda fazer seu cadastro assistido, entre em contato conosco pelo site: www.abacdobrasil.org  ou e-mail: contato@abacdobrasil.org com o assunto GUIA DE QUEM FAZ.

Texto: Edna Pessanha

Fotos: Arquivo ANApress