Oi Futuro apresenta a exposição “Existência Numérica”

O Oi Futuro apresenta a exposição inédita “Existência Numérica”, com obras de sete artistas brasileiros e estrangeiros que têm em comum o número como matéria-prima. Idealizada por Barbara Castro e Luiz Ludwig, com curadoria de Doris Kosminsky, a mostra traz obras interativas, dinâmicas e em tempo real, voltadas para a visualização de dados, área emergente da ciência da computação. Os trabalhos de Pedro Miguel Cruz (Portugal), Till Nagel & Christopher Pietsch (Alemanha), Alice Bodanzky, Barbara Castro, Doris Kosminsky & Claudio Esperança e Luiz Ludwig (Brasil) ocuparão as galerias do 4º e 5º níveis do Oi Futuro no Flamengo. Fluxo migratório – nos EUA e no Estado do Rio de Janeiro –; mobilidade urbana nos sistemas de bicicletas de aluguel em Nova York, Londres e Rio –; investimentos em ciência e tecnologia feitos no Brasil nos últimos anos; a experiência estética como função vital; o que o circuito da arte fala na internet sobre obras de artistas visuais; e o universo dos nomes brasileiros, são alguns temas abordados em projeções, que ocupam até uma parede inteira, videoinstalações, escultura de luz, entre outras.

A escrita do código para gerar a obra de visualização de dados, o seu processo de programação, é parte integrante do trabalho do artista, que é dinâmico, podendo levar a patamares que ele sequer previu inicialmente. De maneira diferente da arte computacional – como video mapping, por exemplo – a visualização de dados investiga o dado em si, chegando ao seu âmago, o número. A monumental massa de dados existente na atualidade é decodificada então a partir de sua estrutura mais essencial, a numérica, tornando compreensível para o público em rápido tempo assuntos que demandariam longas pesquisas.

Proporcionar maior consciência ao público sobre os assuntos complexos em que estamos imersos no mundo contemporâneo, e buscar uma expressão estética para  poder visualizar a gigantesca massa de dados sobre determinado assunto, são discussões da mostra. “O universo de dados produzidos e compartilhados no mundo é equivalente à produção diária de 380 milhões horas de vídeo em qualidade DVD”, destaca Doris Kosminsky. “A história dos números é quase tão longa quanto a história da humanidade, e agora eles avançam de modo exponencial, e estão também no campo da arte, como se para confirmar a sua supremacia no século 21”, afirma.

No exterior, congressos de visualização de dados reúnem até mil participantes, mas aqui no Brasil ainda são poucos os pesquisadores em visualização de dados. Luiz Ludwig acentua que “esta é uma das primeiras, se não a primeira, mostra sobre o assunto no Brasil”. Ele lembra que o Centre Pompidou, em Paris, realizou recentemente (15 junho a 27 de agosto) uma grande exposição a respeito, “Coder le monde” (“Codificar o mundo”). “Podemos dizer então que ‘Existência Numérica’ está no estado da arte”, brinca.

Barbara Castro observa que a visualização é um campo que está diluindo fronteiras, e congrega especialistas de saberes diversos, oriundos de áreas muito técnicas da ciência da computação em direção à arte, ou no percurso inverso. Ela observa que “há níveis diferentes de legibilidade na área da visualização de dados”. Isto poderá ser visto na exposição, onde convivem diferentes abordagens, desde as mais abstratas às mais diretas, mas sempre com uma preocupação estética.

OBRA NA EXPOSIÇÃO

Pedro Miguel Cruz (1985, Viseu, Portugal) terá quatro trabalhos em “Existência Numérica”:

  • “O declínio dos impérios” (2010, 3’41), vídeo

Simulação computacional que retrata a expansão e o declínio dos quatro maiores impérios marítimos durante os séculos XIX e XX: Inglaterra, França, Espanha e Portugal. Os impérios são retratados como bolhas que colidem, sugerindo competição, e se desintegram, sugerindo dissolução. O tamanho de cada bolha corresponde à área territorial de cada império ou país. A simulação resulta numa animação que dramatiza de forma lúdica o declínio desses impérios num curto espaço de tempo. https://vimeo.com/11506746

  • “Vasos sanguíneos de Lisboa” (2013, 2’20), vídeo

Lisboa é representada como um conjunto de vasos sanguíneos interligados com problemas de circulação. Cada estrada é um vaso que engrossa de acordo com o volume de circulação na respectiva estrada. O sistema comporta-se como um cartograma dinâmico, em que as distâncias encurtam quando as velocidades são mais altas, e se alongam quando as velocidades são mais lentas. Desta forma a cidade comprime-se de madrugada e distende-se durante as horas de trânsito mais intenso. A cidade aparece pulsando como um coração. http://pmcruz.com/information-visualization/lisbons-blood-vessels

 

  • “Uma sociedade ego-altruísta” (2018), vídeo

Simulação de vida artificial criada como reflexão sobre a dualidade das nossas personalidades. Existem dois tipos de agentes na simulação: egoístas e altruístas. Eles absorvem energia e agrupam-se em organismos complexos que evoluem para se adaptarem ao ambiente, mostrando como uma sociedade pode prosperar através de interação simbiótica entre os extremos egoísta e altruísta. Esta obra é um contraponto ao individualismo utópico apresentado no “A Nascente”, de Ayn Rand (1905–1982).

https://vimeo.com/285760963

“Dendrocronologia de imigração” (2018), vídeo e duas impressões fotográficas

A obra faz uma abordagem poética da imigração, principalmente a existente nos EUA de 1830 a 2015, mas também, especialmente para a exposição, da migração recebida no Estado do Rio de Janeiro, oriunda de outras cidades brasileiras. A imigração de um estado/país é representada por anéis de crescimento em árvores. Os anéis de crescimento anuais das árvores refletem condições ambientais variáveis ​​e essas formas, não são círculos nem elipses perfeitas. Como os países, as árvores podem ter centenas, até milhares de anos de idade. As células crescem lentamente, e o padrão de crescimento influencia a forma do tronco. Assim como essas células deixam uma marca informativa na árvore, os imigrantes que chegam também contribuem para a forma do país. Estes anéis de imigração expandem-se durante os anos em que certos fatores de acolhimento são predominantes, assim como tendem a permanecer esguios nos anos de guerra ou depressões econômicas. https://vimeo.com/276140430

 

Urban Complexity Lab – Till Nagel (1975, Alemanha) e Christopher Pietsch (1986, Alemanha):

  • “City Flows” (2015-2018, aproximadamente 5’, em três telas), vídeo

Três telas mostram o fluxo do sistema de compartilhamento de bicicletas em Nova York, Londres e Rio de Janeiro (com dados cedidos pelo sistema Tembici), possibilitando a comparação de sua extensão e dinâmica, como também as similaridades e diferenças nesses sistemas. Com essas visualizações, se pretende compreender o pulso da mobilidade urbana, e criar retratos da cidade definidos por suas dinâmicas momentâneas. A obra busca ainda investigar novas maneiras de ajudar os cidadãos a terem consciência de um complexo fenômeno urbano, que é relevante para a sua experiência diária da cidade. Seguindo a ideia central de guiar os visitantes desde o interesse à percepção, os autores planejaram uma visualização da cidade que gradualmente se aprofunda e se detalha. O espectador verá três modos de tela, todos eles com a visualização de bicicletas alugadas, mas enfocando diferentes níveis de espacialidade e temporalidade desta mobilidade. A vista panorâmica da cidade agrega todas as trajetórias de compartilhamento de viagens de bicicletas em um determinado dia na cidade respectiva, e anima os percursos das ciclovias em um determinado tempo. Em outra visualização, são mostradas apenas as viagens “de” e “para” de uma determinada estação, permitindo a distinção entre as partidas e as chegadas. Uma múltipla e menor visualização mostra padrões espaço/tempo de três estações, cada uma com uma vista expandida separando chegadas e partidas, em viagens vespertinas/noturnas.

Alice Bodanzky (1982, Rio de Janeiro)

  • “O Apagar das Luzes” (2018, criada especialmente para a exposição), escultura de luz

Os investimentos feitos pelo governo em Ciência e Tecnologia (C&T) nos últimos 18 anos, a partir dos dados disponíveis no site oficial do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, são materializados em uma escultura luminosa. Para se projetar a forma física da instalação a artista usou algumas referências: pilhas de moeda, imagem comumente associada a investimento e valores; luz/luminária, como símbolo de novas ideias e conhecimento, inovação; e reflexos e sombras, como expressão do alcance e a propagação desses conceitos. O objetivo é provocar uma experiência estético-sensorial, que seja não apenas informativa, mas que permita ao visitante refletir sobre as implicações desses dados para as gerações atuais e futuras. A base de dados é a tabela que resume o dispêndio nacional em C&T, em valores correntes por atividade, de 2000 a 2015. Os valores relativos aos três últimos anos ainda não foram publicados e estão sendo coletados em outras fontes. Através do design computacional e da fabricação digital foi gerado um sistema-material performativo capaz de “traduzir” os dados coletados em aspectos formais definidores do design da instalação. Os dados determinam a área de cada camada / ano. Quanto maior o investimento maior será a área. A forma da área remete ao formato das moedas. E a sequência dos anos dispostos verticalmente em camadas faz referência quase literal ao empilhamento de moedas. Os dados definem também as aberturas em cada camada da luminária, determinando assim a quantidade de luz que passa. Quanto mais luz, maior foi o investimento naquela área, naquele ano. E, portanto, há maior reflexão da luz pelo espaço simbolizando o alcance do investimento no ano presente e seu impacto futuro.

Barbara Castro (1988, Rio de Janeiro)

  • “Disritmia” (2018, criada especialmente para a exposição), instalação interativa, com visualização dinâmica de dados

Luiz Ludwig (1988, Rio de Janeiro)

  • “Discurso do Artista” (2018, criada especialmente para a exposição), computador e impressora

A obra, desdobramento da pesquisa do artista focada em scraping, raspagem de dados, investiga o que o circuito da arte fala na internet sobre obras de artistas visuais. O trabalho será on time, ou seja, o público verá o computador coletando os dados na hora. Uma impressora vai imprimir os dados a cada vez que o robô – a ferramenta de busca e coleta de dados – trouxer uma informação nova. Inicialmente a busca vai seguir alguns artistas, galerias de arte, curadores e críticos para dar o input necessário, mas o programa vai se desdobrando por si, buscando outras pessoas, e ampliando a pesquisa. A obra não emitirá juízo de valor, apenas mostrará os dados. Tanto o computador como o espectador poderão encontrar padrões nesta pesquisa. “É uma obra em aberto”, destaca o artista.

Doris Kosminsky (1960, Salvador)  e Claudio Esperança (1958, Rio de Janeiro,  Brasil)

  • Redes de Nós (2018, criada especialmente para a exposição), vídeo dinâmico

A obra discute o lugar do indivíduo na internet, a falta de controle em relação à privacidade, o que nos diferencia e o que nos iguala, o que é verdade sobre nós, e o que não é. Pensamos ser únicos, mas quantos serão como nós? O que nos liga uns aos outros? A obra parte da visualização dos prenomes dos brasileiros nascidos a partir de 1930, obtidos de uma base de dados do IBGE.  Quanto maior a frequência de um determinado nome, maior será o seu tamanho. Esses nomes estarão em movimento, formando um “rio de nomes” que “escorre” pela parede. O visitante poderá buscar seu próprio nome na obra, e incluir uma foto sua, captada na hora por uma câmera. Eventualmente, uma busca na internet trará uma associação inesperada. “A arte eletrônica tem este aspecto um pouco lúdico”, assinala Doris.

Serviço: Exposição “Existência Numérica”

Oi Futuro, Rio de Janeiro

Até 18 de novembro de 2018

Entrada gratuita

Terça a domingo, das 11h às 20h.

Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo, Rio de Janeiro

Telefone: 21.3131.3060

www.oifuturo.org.br

 

 

Por: Lilian Diniz