Tecido ecológico estimula o consumo consciente e ganha espaço na moda

Mesmo com a agitação e excessos da vida moderna, crescem os movimentos de conscientização que se preocupam com o impacto ambiental provocado pelas atividades industriais, uma vez que seus processos produtivos frequentemente costumam prejudicar o meio ambiente e os que nele habitam.

O setor têxtil é um dos que mais se empenha na implementação do consumo consciente, tendo como importante resultado de suas iniciativas a fabricação dos tecidos ecológicos.

O nome tecido ecológico se refere a um grupo de tecidos fabricados por meio de métodos que reduzem o impacto de carbono, energia e poluição, em relação ao método padrão usado na fabricação tradicional de tecidos. Eles são mais duráveis e macios, além de resistentes aos raios ultravioleta, absorvem melhor a umidade que os tecidos convencionais. Na sua fabricação, o custo ambiental é muito menor e, os recursos melhor preservados.

Geralmente os tecidos ecológicos são fabricados a partir de plantas que não necessitam de pesticidas ou produtos químicos, utilizam menos água e energia para serem processados e criam menos lixo desde a produção até o fim de sua vida útil. Também são chamados de ecológicos os tecidos fabricados a partir de substâncias recicladas, como é o caso do bambu e da madeira.

O tecido saudável

Orgânico é outra palavra que se destaca neste segmento. Começando pelos alimentos serve também para tratar as fibras que se transformam em tecidos. São classificados como orgânicos, o algodão, a juta e o bambu produzidos sem o uso de agrotóxicos, pesticidas ou mudanças genéticas para se desenvolver, garantindo assim a qualidade do ar, água e solo. O cultivo de algodão feito pelo sistema convencional consome um quarto do inseticida produzido em todo o mundo. Na versão orgânica, os agricultores utilizam água reciclada nas plantações e diminuem por completo o impacto ambiental. Os tecidos orgânicos são tecidos saudáveis, sua fabricação utiliza 50% menos da energia consumida em uma plantação convencional, não compromete a saúde de agricultores e animais, e por serem na sua maioria antialérgicos, são recomendados para pessoas com peles sensíveis.

A confecção destes tecidos devem cumprir a regulamentação estipulada pela Associação de Comércio de Orgânicos ou por um órgão regulador, no que diz respeito a produção, ao tingimento e ao manuseio das fibras, o mesmo vale para materiais como couro ou pele animal. É importante procurar o certificado nas embalagens para ter certeza de que se trata realmente de um produto orgânico.

Ao comprar uma roupa fabricada com fibra orgânica, além de não ser tóxica, ela vai durar muito mais, pois não tem produtos corrosivos em sua fabricação. Já que as peças são mais duráveis, podem ser usadas em várias temporadas, diminuindo o excesso do consumo.

O ecofashion se destaca

Couro de peixe, algodão orgânico, jeans de seda e garrafa pet. Este tipo de matéria-prima aparecia como tendência na moda, mas era usada somente nas roupas das modelos que desfilam em passarelas, com o passar do tempo os tecidos alternativos conquistaram os holofotes do mercado fashion e ganharam as ruas.

O segmento da moda começou a fazer parte dos movimentos que recomendam a economia de água, energia elétrica, a diminuição de poluentes e outros meios que afetam a natureza. Materiais que procuram incentivar o consumo ecologicamente correto figuram em marcas de estilistas famosos, a onda ecofashion já se destaca no cenário da moda, deixou de ser produzida por marcas desconhecidas e ganhou etiqueta de grifes renomadas. Ao empregar os tecidos ecológicos em suas coleções, as grifes dão prova de que eles não perdem em nada para os materiais produzidos de modo tradicional. Além de se sobressair entre os profissionais do setor, a moda sustentável atualmente é também um comportamento, se destaca em vitrines e passarelas de todo o mundo, e é um rentável ponto de encontro entre as grandes marcas e a elegante consciência verde.

Design, tecnologia e ecologia

A moda sustentável vai muito além dos tecidos inteligentes, ela promove o comércio justo e com responsabilidade social, atrela a produção ao equilíbrio entre natureza, economia e sociedade, incorpora às criações valores como o consumo consciente, já conquistou o consumidor mais exigente, e que costuma se preocupar com os rastros que deixará no planeta para as próximas gerações, assim como as cooperativas de moda artesanal e o mais alto público da moda de luxo.

Há tempos a indústria vem tentando encontrar uma maneira de produzir peças que não degradem os recursos naturais de forma predatória, atualmente é possível fazer roupas que agradam os compradores e unem conceitos discordantes como design, tecnologia e ecologia.

A maior novidade continua sendo as roupas produzidas com material reciclável, onde se destacam as garrafas PET, transformadas em tecido, e o pneu, que vira bolsa e solado de sapato, com a madeira de reflorestamento podem ser confeccionadas belíssimas bijuterias.

Uma das maiores preocupações dos ambientalistas é o alto consumo de plástico, derivado do petróleo, o plástico demora ao menos, cem anos para se decompor na natureza, além de poluir rios e oceanos e provocar a morte de milhares de animais por asfixia. Para diminuir esse impacto, alguns países adotaram medidas de preservação do meio ambiente como a substituição das sacolas plásticas de supermercados por sacolas de pano. Na indústria têxtil, a utilização de fibras de garrafa PET tornou-se um atrativo para muitos empresários, cerca de 40% de todo PET reciclado é destinado a este setor. O processo é dividido em várias etapas, que vai desde o recolhimento e a esterilização de garrafas até o derretimento de pedaços do plástico para a formação de uma polpa e transformação em fibra que são destinadas à produção de roupas, calçados e acessórios.

Devemos levar em conta que o uso da fibra de PET apenas retarda o despejo do material sintético no meio ambiente. Esse material derivado do petróleo vai chegar à natureza no momento que a roupa for descartada. Mesmo sendo uma alternativa interessante na medida em que recicla um material que seria diretamente descartado na natureza, devemos questionar se a utilização da fibra de garrafa PET é a melhor solução.

Fibras naturais, um novo nicho de mercado

Pauta nos principais veículos de comunicação, o desenvolvimento sustentável fez com que o meio científico aumentasse as discussões a respeito das formas tradicionais de produção e consumo decorrentes do capitalismo e o impacto ambiental por eles causado. Com o aquecimento global em curso, o futuro da espécie humana tornou-se uma preocupação para um grupo de pessoas com maior poder aquisitivo e acesso à informação que segue os preceitos do chamado consumo sustentável, e procura entender o impacto ambiental e social que o produto adquirido por ele provoca desde a extração de sua matéria-prima até o seu descarte.

A partir deste novo consumidor, a indústria têxtil percebeu um mercado a ser explorado. Corporações de todo o mundo começaram a investir em produtos feitos a partir de fibras naturais ou material reciclado, além de adotar um discurso de empresa ambientalmente responsável.

Mesmo fazendo experimentos com novas matérias-primas, a produção de tecidos ecológicos teve seu início a partir de pesquisas realizadas com o algodão, que é a fibra mais utilizada na indústria têxtil mundial. Com o objetivo de reduzir os malefícios à saúde e ao meio ambiente causados pelo cultivo de algodão, pesquisadores conseguiram modificar duas de suas fases de produção, o cultivo e o acabamento, uma vez que nestas duas etapas se concentram os principais riscos; a primeira devido ao uso de fertilizantes, herbicidas e pesticidas, e a segunda em função dos materiais tóxicos usados para alvejar e tingir o tecido.

A partir da década de sessenta, estudos começaram a ser desenvolvidos para diminuir o impacto causado pelo tingimento do algodão. Foi descoberta a existência de outras espécies da planta diferentes da tradicional fibra branca. Somente a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) contabilizou 39 espécies de cores no mundo inteiro, algumas delas cultivadas há cerca de cinco mil anos. Por meio de melhoramento genético, o Centro Nacional de Pesquisa de Algodão da Embrapa aperfeiçoou a qualidade da fibra, porém o principal ponto a favor do algodão colorido seria o menor risco à saúde e a inexistência de custos com o tingimento do tecido. Entretanto, sua viabilidade econômica é questionada, pois o algodão colorido possui produtividade menor e custo mais alto, o que afasta o interesse dos empresários do setor.

Do mesmo modo, na década de oitenta começou a ser repensada a produção rural do algodão. Os problemas com a utilização de agrotóxicos e a pressão de ONGs que trabalhavam com outras culturas orgânicas fizeram com que os produtores começassem a adotar o cultivo do algodão nos mesmos moldes, com os sistemas de produção orgânica utilizando somente insumos naturais, e abolindo os herbicidas e pesticidas sintéticos, diminuíram o dano ao meio ambiente e aos trabalhadores. Todo esse cuidado requer trabalho e custos maiores, fazendo com que o algodão orgânico apresente as mesmas dificuldades de viabilização que o algodão colorido, é mais caro e menos produtivo. O algodão orgânico se assemelha à fibra convencional e possibilita a confecção de diferentes tipos de tecidos.  Ao utilizar corantes naturais e aproveitar as colorações naturais de alguns algodões, surgem novas cores para os produtos. Esse tipo de algodão é produzido em pequena escala, o que permite que seu cultivo seja acompanhado de perto. As colheitas são alternadas e são usados predadores naturais no combate às pragas. Mas para ser considerado orgânico, não basta que o algodão seja produzido desta forma, é preciso também que a tecelagem dispense qualquer tipo de agentes químicos e que substitua a graxa de parafina usada nos teares pela cera de abelha.

Os campos devem estar sem o uso de agrotóxicos há pelo menos um ano e todo o sistema de produção deve ser inspecionado por um órgão certificador. O cultivo do algodão orgânico evita o adoecimento de cerca de 250 mil agricultores por ano, que seriam contaminados ao ficarem expostos aos venenos usados para controle de pragas. As cooperativas criadas por essa cultura ainda promovem uma relação mais justa entre os pequenos produtores e o mercado.

Orgânico e popular

O mais popular entre os tecidos orgânicos, o algodão também é utilizado em artigos pessoais como produtos sanitários, esfregões e fraldas para bebês, assim como em artigos de mesa, banho e até mesmo em papelaria, segundo a Associação dos Consumidores de Produtos Orgânicos, a demanda por roupas feitas de algodão orgânico tem aumentado consideravelmente.

Além do algodão, a lã orgânica, a seda e o cânhamo também são materiais orgânicos muito populares. Fibra natural altamente durável, o cânhamo não requer pesticidas e necessita de pouca água para crescer. Por ser uma fonte renovável, os fazendeiros podem manter plantações de cânhamo ano após ano. Pode ser usado em vestuário, cosméticos e papéis. Para tornar o cânhamo menos rígido, as fibras geralmente são misturadas com algodão e seda.

As empresas que almejam fazer parte da moda eco-amigável, também apreciam a utilização do tecido sustentável feito a partir do bambu. Com crescimento rápido, ele é 100% biodegradável, pode ser cultivado sem pesticidas ou aditivos químicos, produz excelente tecido para roupas esportivas devido às suas propriedades naturais anti-bactericidas e absorventes, além de ter uma textura macia.

Artigo de luxo e status

A utilização dos tecidos ecológicos ainda gera muitas incertezas, a viabilidade da produção em grande escala das fibras ecológicas divide a opinião de especialistas.  Produtores e empresários têm receio de abdicar das práticas tradicionais de cultivo e produção, com temor de não haver retorno do investimento nas práticas ecológicas. Por sua vez, o consumidor ainda persiste na desconfiança em relação à procedência do produto ecológico e ao seu alto custo. Existem os defensores de que o valor agregado fez destes produtos um artigo de luxo, que muitas vezes é consumido apenas por status, sem a consciência dessa nova forma de produção e consumo.

Ecochic é o movimento   

Mônica Horta é jornalista, artista plástica, artesã e empreendedora socioambiental.
Durante os últimos 25 anos, dedicou-se a pesquisar sobre técnicas têxteis e artesanais tradicionais da cultura popular brasileira. Como artista plástica, fez várias exposições individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Como figurinista, produziu para cinema e teatro, e fez produções de moda para TVs. Como artesã, presta serviços de concepção e desenvolvimento de projetos e coleções, e ministra a Oficina Ecochic, na qual repassa técnicas de reaproveitamento de tecidos e fios.

Entre 2010 e 2012, foi colunista do ffw.com.br, o principal portal de moda e comportamento do Brasil, de onde se ausentou ainda em 2012, para se dedicar integralmente ao seu projeto Movimento Ecochic, cujo alcançou imensa repercussão contando com a participação de todo o Brasil, e pelo qual foi convidada a palestrar em grandes eventos e em instituições renomadas como SENAI-Cetiqt Barra no Rio de janeiro e EACH-USP em São Paulo. Como empreendedora socioambiental, atua como Diretora criativa do Movimento Ecochic, realizando ações em todo o Brasil, profere palestras e presta consultorias.

Documenta Press – O que é o Movimento Ecochic?

Mônica Horta – O Movimento Ecochic foi lançado em 2012 como Movimento Ecochic day, mas teve seu nome alterado /reduzido  pra Movimento Ecochic, pois o “day” não cabia mais na amplidão do seu formato livre. O Ecochic é um movimento de movimentos. Um projeto fundamentado em economia criativa, que promove encontros físicos e virtuais entre diferentes tipos de pessoas, atuantes em todas as formas de cultura popular e sustentável; gera conhecimento e cria relações entre quem produz, quem vende, quem aprecia e quem consome o feito à mão brasileiro. Além de promover encontros físicos, realizamos ações complementares, como a produção de um editorial de moda com a participação de mais de quarenta criadores de dezoito estados do Brasil. Realizamos também ações de responsabilidade socioambiental, como a junto às Bordadeiras da Praia do Sono em Paraty em 2013, com as quais criamos, produzimos e apresentamos uma coleção cápsula de produtos durante a FLIP. Fomos convidados a participar de eventos como a Semana de Têxtil e Moda da USP, e de programas de TV, como o Capital Natural, com Fernando Gabeira.
Nossas abordagens e ações envolvem todo o Brasil.

Documenta Press – O que a levou a ter a ideia de criar este evento?
Mônica Horta – Sempre acreditei na construção social humanizada coletiva, colaborativa, e escolhi a união da moda/cultura/informação como caminho. O Movimento Ecochic é o resultado de todas as minhas experiências profissionais: aos treze anos “modelava”, aos quinze me tornei artesã de acessórios de moda, aos dezesseis me envolvi com publicidade, com dezessete escrevi minha primeira coluna em jornal, aos dezenove fiz minha primeira exposição de artes plásticas com temática ambiental, aos 22 fiz curso de estilismo, aos 24 comecei minha carreira como jornalista de moda, e não parei mais de fazer tudo isso junto, ao mesmo tempo.

Documenta Press – O que acontece no evento?
Mônica Horta – O conceito do nosso trabalho é gerar conteúdo e distribuir informações. Fazemos essencialmente isso em nossos encontros. Desde 2012, a equipe Ecochic realizou todos os tipos de atividades culturais, como diferentes exposições de artes plásticas e fotografia, desfiles e performances de moda, oficinas de artesanato e customização, worshops, flash mobs, feira de designers, concursos, conversas criativas, lançamento de produtos, palestras e entrevistas com grandes nomes, shows musicais, apresentações de  Djs e peça teatral, entre outras ações interativas.

Documenta Press –  Fabricantes e consumidores já tem a consciência de que sustentabilidade não é apenas um adicional supérfluo à moda, e sim uma necessidade?
Mônica Horta – Os fabricantes de tecido e os consumidores conscientes hoje têm em comum o interesse por novidade.  Desde que sustentabilidade “entrou na moda”, ela perdeu a sua essência, porque houve uma separação entre o comum e acessível, e o sustentável. Colocaram a sustentabilidade como se fosse uma nova lei, uma interferência externa complicada no nosso cotidiano já tão complicado. E o que não é fácil, prático, barato, “fast”, não é aceito. Porém, a vida sustentável é um caminho sem volta, que a humanidade vai trilhar, queira ou não. A necessidade atual é encontrar meios de incorporar essa novidade à vida, e o desafio é provar que uma vida sustentável é mais leve, simples, funcional.

Documenta Press – Por que os tecidos alternativos estão conquistando o mercado?
Mônica Horta – Esse mercado está sendo aquecido pelo avanço tecnológico de indústrias como a Rhodia com seu novo fio biodegradável, que tem as mesmas qualidades do fio anterior, e que foi recém-lançado como tecido pela Santa Constância. Temos por aqui também, produções de tecidos orgânicos e o algodão que nasce colorido, e os reciclados, como o de PET e o da marca Ecosimples. Na Europa, ganharam as ruas roupas feitas com tecidos que não precisam ser lavados a cada uso, pois absorvem muito pouca sujeira.  E algumas indústrias têxteis europeias, já fazem tingimentos com incorporação total do corante no tecido sem uso de água. Recentemente surgiram marcas que usam resíduos agrícolas para a produção de tecidos, como o feito com abacaxi. E na China, os processos poluentes estão sofrendo pressão da legislação ambiental local. Ela é um país que está investindo em design, o que certamente implicará em produtos com conceito de sustentabilidade. Estamos vivendo um importantíssimo momento de transição de mercado.

Documenta Press – Os produtos ecologicamente corretos são mais caros porque são vendidos apenas como um diferencial de mercado e não como um princípio ou base das empresas?
Mônica Horta – Eles são teoricamente mais caros, porque a grande maioria dos consumidores ainda não têm conhecimento suficiente para identificar um produto ecologicamente correto, muito por conta do marketing enganoso que acompanhou a “onda” da sustentabilidade. Não concordo com a alegação de que pra ser sustentável tem que ser caro, mesmo porque, um dos princípios da sustentabilidade é exatamente preço justo. Algumas marcas se colocam no mercado de uma maneira superficial, e, ao invés de disseminar uma nova prática, impedem o acesso à esse conceito fundamental pra construção de um mundo mais harmonioso. Por exemplo, existe uma infinidade de opções de brinquedos, que podem ser feitos a custo zero, com reaproveitamento de materiais. E talvez, uma pessoa que se interessa pelo tema eco, compre em uma loja a um preço alto, um brinquedo que poderia ser feito em casa na companhia da própria criança, achando que o que ela faz não é tão bacana. Outro exemplo típico é o uso de técnicas tradicionais em roupas e acessórios. Quase todas as brasileiras têm uma parente ou vizinha que sabe fazer crochê, tricô, bordado, enfim, mas muitas que apreciam peças artesanais preferem comprar prontas, pois acreditam que o que e como fazem não seja tão bacana. E o conceito de sustentabilidade fica elitizado. É preciso ressaltar que preço justo é relativo, uma vez que cada criador tem o direito de cobrar o que considera justo pelo seu trabalho. Uma coisa é o valor do trabalho do criador, outra coisa é o preço da peça, que alguns colocam lá em cima, com a alegação de custo de produção. Isso precisa passar a ser amplamente esclarecido.

Documenta Press – Os artigos ecologicamente corretos tem futuro no Brasil uma vez que a maioria das pessoas são obrigadas a comprar produtos mais baratos?
Mônica Horta – Um produto pode ser tachado como ecologicamente correto por apresentar características distintas. Por exemplo, uma peça de roupa comprada em brechó, ou customizada, ou produzida com tecidos naturais, ou com retalhos reaproveitados, ou feita com técnicas manuais, pode ser considerada ecologicamente correta. O Brasil é um país sensacional, com um povo incrivelmente criativo, que carrega consigo a tradição do artesanato, e a preciosidade da diversidade estética. O que falta aos brasileiros é autoestima e conhecimento a respeito de possibilidades, para que assumam seus gostos.  Sonho com um futuro próximo, em que as pessoas não serão mais “obrigadas” a comprar nada, e terão o entendimento da diferença entre valor e preço.  O Movimento Ecochic investe nesse repasse de conhecimento, pois um produto barato não é necessariamente ruim, assim como um caro pode não ser bom. Ainda vamos aprender a escolher o justo.

Documenta Press – O uso do tecido ecológico tem adeptos no resto do mundo?
Mônica Horta – A Europa forte, com poder, está se interando a cada dia mais com questões sustentáveis. O melhor é que muitos têm o entendimento lúcido de que sustentabilidade não é o modo de fazer, mas de ser. E ser significa, por exemplo, se alimentar com produtos agroecológicos (em alguns países agrotóxicos já estão proibidos).  A produção de tecidos ecológicos envolve de maneira saudável, toda uma cadeia produtiva. Quem tem essa informação tem opção, e quem pode optar sempre faz a melhor escolha. O uso do tecido ecológico ganha mais adeptos, à medida que vai se tornando comum no mercado.

Documenta Press – Quem são os consumidores da moda ecológica?
Mônica Horta – Consumidores de moda ecológica são os que já entenderam a importância do consumo consciente. São dois tipos de pessoas: os que têm alto poder aquisitivo e são adeptos do novo luxo, e os que têm gosto refinado, informação e atitude seletiva, que são basicamente os formadores de opinião, como os envolvidos com comunicação e cultura.

Documenta Press – Existe alguma pressão para que os estilistas se rendam à moda ecológica?
Mônica Horta – Não acredito que exista essa pressão. Estamos de fato vivendo uma fase de transição, mas a moda tem caminhado no bom sentido de se autorreafirmar como livre. Existe espaço para todos os gostos e formas de produção. Os criadores estão sempre abertos a lançamentos, e a adequação dos estilistas será um processo natural gerado pela já real, mas limitada, disponibilidade de novos materiais pela indústria. É isso que rege o mercado.

Documenta Press – Ainda é preciso criar desejo no consumidor para que ele compre produtos ecológicos?
Mônica Horta – O desejo no consumidor vai ser gerado de maneira automática, quando ele puder consumir produtos ecológicos com design, qualidade e bom preço.

 

 

Por: Edna Pessanha