Safra de chefs transforma cozinha de Alagoas em atração turística

Além do mar azul-turquesa e da brisa constante, há outro bom motivo para visitar Maceió: seus restaurantes, encabeçados por uma safra de chefs que valoriza ingredientes locais tanto em pratos típicos do Nordeste quanto em novas receitas, com influência de outras partes do país. A gastronomia alagoana ganhou mais popularidade depois que alguns cozinheiros foram alçados à fama graças a aparições em reality shows.

Simone Bert, do restaurante Wanchako, e Paulo Quintella, do Aratu, por exemplo, participaram da última temporada do MasterChef Profissionais, na Band, em 2018. Juntos, eles somam mais de 90 mil seguidores no Instagram. No Aratu —que também é o nome de pequenos caranguejos vermelhos que povoam mangues—, os pratos usam ingredientes da região de diversas maneiras.

Na entrada, a macaxeira é servida em forma de tortilha num taco de camarão e queijo coalho. Depois, no prato principal, o ingrediente vira um cuscuz de puba (massa feita de mandioca fermentada), acompanhamento para um filé de peixe com camarões salteados. A casa fica nas margens da lagoa Manguaba, em Marechal Deodoro, cidade a 25 minutos de carro da capital. Lá perto está o povoado de Massagueira, que, não à toa, desponta como polo de restaurantes de frutos do mar.

Com 42 quilômetros quadrados, Manguaba é a maior lagoa do estado e fonte de renda para pescadores de bagres, tilápias e siris. A pesca do crustáceo é feita com uma armadilha chamada cova ou com um cesto, a teteia. À noite, a cova é submersa na lagoa com a isca e uma pedra. Pela manhã, o pescador retorna e retira a armadilha. Em geral, são capturados de 2 a 4 siris por cova.

Durante o dia, os pescadores vão até bancos de areia na lagoa, colocam teteias debaixo d’água, com isca, e esperam o siri subir no cesto para puxá-lo. Num dia bom, de vento fraco ou durante o inverno, cada pescador consegue pegar até 200 siris.

Um desses pescadores é o seu Bahia, 77, que há 34 anos tem um bar aberto às margens da lagoa Manguaba. Entre os pratos servidos na casa está o siri de coral, que é vendido a R$ 3,50 a unidade. O coral é uma massa cor de laranja, salgada naturalmente, formada pelas ovas do siri em sua fase de maturação. Os crustáceos são servidos inteiros e é preciso abri-los com a mão e uma pequena colher até encontrar o coral nas extremidades da casca.

A regra do seu Bahia é clara: se ao abrir o siri o visitante não encontrar o coral, não é preciso pagar. Prontamente, o animal será substituído por outro, vindo diretamente da “geladeira de siri” —uma gaiola na qual os crustáceos são mantidos vivos na lagoa. Em Maceió, no restaurante Sur, capitaneado pelos chefs Felipe Lancet e Sérgio Jucá, os produtos locais ganham novas apresentações em receitas contemporâneas.

O siri vira recheio de coxinha, e o queijo coalho se transforma num carpaccio com molho pesto, castanha-de-caju e folhas de hortelã. Já a tapioca pode ser usada como pincel —para que o visitante faça sua própria arte, inspirada em Delson Uchôa, artista plástico alagoano, com tinturas comestíveis feitas de pimentão amarelo, pimentão verde, azeitona e cheiro-verde.

As reinvenções continuam no peruano Wanchako. A chef, Simone Bert, alerta: não espere pratos tradicionais. O cardápio é inspirado na culinária nikkei, que une as cozinhas japonesa e peruana. Em vez de pescados do Pacífico, a chef usa robalo da foz do rio São Francisco, no sul de Alagoas. A cena gastronômica de Maceió também abriga casas com criações de outros estados. O Akuaba, do chef Jonatas Moreira, nascido em Salvador, serve receitas “afro-baianas”.

O restaurante surgiu dentro da casa de sua família, quando sua mãe, Vera, preparava pratos típicos como moqueca e acarajé para convidados. Hoje, funciona em outro endereço, num local amplo e arejado, mas o acarajé continua sendo responsabilidade de Vera. Além das receitas tradicionais, vale provar o polvo laqueado com shoyu, mel e mostarda dijon.

Da Redação
Fonte: Abrasel