Artesanato sustentável reaproveita cerca de 5 mil pneus por mês em Teresina

O reaproveitamento de materiais, com a transformação deles em objetos úteis novamente, tem se tornado cada vez mais comum. Em Teresina, um projeto do artesão Edvan Barradas alia arte e educação para transformar pneus em uma infinidade de objetos. Em média, o ateliê reaproveita 5 mil pneus por mês.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o ecodesign está relacionado ao desenvolvimento de produtos que reduzem o uso de recursos não-renováveis. Entre os objetos produzidos por Edvan, a variedade é enorme: de pulseiras a pufes, camas e abajur. Desde o ano passado, o projeto está trabalhando o desenvolvimento de uma linha de bolsas femininas e masculinas, que são produzidas com a câmara de ar do pneu.

“Até a linha que costura a bolsa é retirada do pneu, porque nós temos uma política de que todo pneu que entra no ateliê deve ser reaproveitado. Esse trabalho não gera lixo, tem 100% de reaproveitamento”, destaca o artesão cujo ateliê está localizado no bairro Poti Velho, zona Norte de Teresina.

A iniciativa se subdivide no projeto Arte com Pneus (parte educacional) e o Ateliê Mestre Divas (produção). “É muito importante, 90% do nosso projeto é repassar o conhecimento. O objetivo é que, cada vez mais, as pessoas tomem conhecimento do reaproveitamento do pneu”, explica.

A matéria-prima utilizada por Edvan é oriunda de coleta nas ruas da cidade. Ele conta que não busca o material em borracharias, porque a Prefeitura de Teresina já realiza essa coleta. Independente do estado em que o pneu se encontra, ele é reaproveitado no ateliê.

Com o tempo, o artesão foi adquirindo prática e maior eficiência na produção. “Com o domínio da técnica, nós tivemos maior agilidade na produção da peça. A primeira peça produzida, que foi uma poltrona, levou um ano e seis meses para ficar pronta. Nós não trabalhamos com cópia e, ao longo dos anos, nós conseguimos desenvolver 157 itens partindo do pneu”, pontua.

O projeto de Edvan já foi levado para vários países, como Holanda, Inglaterra, Alemanha, Espanha e Argentina. “É um mercado promissor, riquíssimo, se você conseguir desenvolver peças que as pessoas tenham vontade de comprar, tem que ser útil, ter design e ser confortável”, afirma

Artesão abandonou carreira de professor para se dedicar a projeto

Edvan Barradas lembra que o projeto foi iniciado em 2005, quando surgiu, na Europa, o Ecodesign. “Nós não trabalhamos com reciclagem, até porque, para fazer reciclagem, precisa continuar o ciclo da matéria-prima. Para eu ser reciclador, precisaria pegar o pneu, triturá-lo e fazer outro pneu para que volte para o automóvel”, esclarece.

O artesão, que era professor de história, deixou tudo para trabalhar no projeto. “Abandonei toda a minha vida profissional e, em uma semana, comecei a trabalhar com o reaproveitamento do pneu. Queria fazer uma cadeira que a maresia não comesse, essa foi a ideia, e resolvi fazer do pneu. Ao longo dos anos, nos tornamos referência no Piauí”, pontua.

Apesar de não ser o foco do projeto, Edvan reconhece a importância ambiental de iniciativas de reaproveitamento de pneus para o meio ambiente. Além de evitar o descarte impróprio desses objetos que podem parar nos rios, o fato de recolher os pneus também é benéfico por evitar que esse material se transforme em criadouro para o mosquito da dengue. Para além disso, Edvan é categórico ao explicar que o trabalho realizado é arte e deve ser reconhecido como tal.

De acordo com o artesão, o Piauí é pioneiro no reaproveitamento de pneus, surgindo ainda nos anos 1950, sendo produzidas bacias e lixeiras. “Nós chegamos com o design, o composé, com a coisa mais sofisticada, quebrando tabu porque as pessoas tinham o pneu como um patinho feio do reaproveitamento, ninguém gosta. Nós tivemos que desenvolver todas as técnicas do manejo com o pneu”, conta.

Cursos de capacitação contemplam comunidades carentes

O projeto Arte com Pneus também passa o conhecimento à frente de forma gratuita e já recebeu pessoas interessadas em conhecer a atividade, vindas, por exemplo, do Rio Grande do Sul e da Argentina. Além disso, o grupo já percorreu 87 municípios, levando o curso de reaproveitamento de pneus para comunidades carentes. O artesão explica ainda que esses cursos são dados apenas para piauienses.

“Com essa iniciativa, nós já conseguimos fundar 38 cooperativas de artesanato sustentável. Funciona da seguinte forma: eu vou na comunidade, ministro o curso e, depois de cerca de um mês, volto à cidade e verifico se está tudo certinho. Com a ajuda de uma assistente social, são organizadas mini cooperativas. Uma vez que ela está instalada, buscamos recursos via Ministério do Meio Ambiente e secretarias municipais para viabilizar esse início”, diz.

A partir desses cursos e formação de cooperativas, Edvan diz que as cidades exterminam o problema de pneus, já que eles são reaproveitados nesses locais

 

 

Edição: Virgiane Passos

Por: Ananda Oliveira
Fonte: Portal o Dia